Google Translator

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Gestos...

E porque estamos em Junho, mês das crianças, deixo-vos aqui este gesto, com fome de palavras. Quem mas dará, as palavras?

(E era Junho nas veredas de Fajã e arredores quando cantávamos - depois do exame - Viva quel vin! Viva! Viva quel bôl! Viva! Ô li, ô lá, raposa ca ta entrá! Lembras-te, Gilson? Mamãe à nossa espera na soleira da porta com um balaio de mangas maduras que o meu irmão Rufino fora buscar em Pedregal... E agora que minha filha me diz que terminaram as aulas, dá-me ganas de bradar - ondê os exames da minha infância, ahn?)


("Um gesto de amor nas ruas de Roterdam" - foto de PD)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Novo blog no pedaço...

Pessoal,

Mais um novo cantinho na blogosfera crioula. Dessa vez, para se falar de gestão (que não deixa de ser uma outra forma de poesia... eh eh eh). Divulguem, precisamos gerar uma dinâmica de debates, comentários e sugestões, para que o blog seja útil.

Em breve teremos outras rúbricas. Estamos a "negociar" com outros co-autores, o Contabilista/bloguista Afonso e o licenciado em Administração/bloguista, Tide, que incluirão análises económicas e financeiras de empresas, conversas com gestores e líderes, o que rola lá fora no mundo da gestão, etc.

www.pordentrodasorganizacoes.blogspot.com

.

Folha caída

Foi-se hoje um grande homem. Não daqueles que despoletam manchetes nos jornais, reportagem na TV, luto nacional, repórteres em polvorosa. Quanto mais, um pequeno anúncio 4x7 num jornal qualquer e um aviso no Agenda de Informações. Mas um grande homem, todavia.

Foi-se-me hoje um daqueles homens destas ilhas que, qual paciente artesão, ajudou a construir, pedra a pedra, pilar a pilar - ainda nos meus tempos de estudante em São Vicente - este edifício que me tornei. Assim que me passar a comoção, Tio Frank, poderei lhe dizer então um MUITO OBRIGADO por tudo.

Que a terra lhe seja leve, Francisco André da Cruz!


("Pilar" foto de PD)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Foi-me dito que...


Sobre este post, escreve-me assim o leitor Venâncio:

"Interessante, as sombras são todas iguais. Não são brancas, amarelas ou vermelhas. Somos uma única cor. O que diferencia uma sombra da outra é o tamanho e os objectos que cada um carrega, grandeza do espírito. A humanidade precisa de alguma maneira encontrar a sua sombra."

Dá que pensar, não dá?

Muito obrigado, Venâncio, por esta inquietação...

.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Como se conta...


("Tempo para amar" - fotografia de PD, inspirado nesta história...)

.

Indignação!

Antes que me acusem de estar a ser muito "má-criado" nesta reentrée, permitam-me mandar mais uma grandesíssima PORRA!!!!!, para esta notícia...

E mais não digo!


("Indignação" - foto de PD)

Luz! Luz! Luz!!

Escrevo hoje à luz de velas. E por conta das mentes que nos inventaram a bateria de computador, felizmente. Estou em crer até que estes se inspiraram numa tal empresa de electricidade de um tal país chamado Cabo Verde. Honra e glória a esses moços, portanto!

À luz de velas, dizia. E de madrugada. Já não suporto o calor infernal. Do tecto, a ventoínha - parada - me encara até com um quê de pena. Escancaro a janela para que me entre um tintinho assim de vento. Em vez disso, fumo do barulhento gerador do prédio defronte. Chiça! Entre o calor, a não-luz, o fumo e o barulho, decido escrever para exorcizar o nome de Pai-Filho-Espírito Santo-Amén. Que
, neste preciso momento, dá-me ganas de praticar o 4º pecado até a exaustão...

São com certeza românticos os moços da Electra: têm um prazer quase carnal para com a vela. Jantar à luz de velas. Escrever (poemas e outras merdas) à luz de velas. Ler à luz de velas. Cagar à luz de velas. Dormir à luz de velas. Acordar à luz de velas. F... à luz de velas. Porra!, por este andar já nem vou pedir ao meu velho que me mande como encomenda um gruguim de Sintanton para secar o suor neste Verão. Antes velas. Muitas velas. Caixas de velas. De purgueira, que está na moda. É isso. Arranquem as canas e plantem purgueira. Encham-me as encostas da ilha toda de Jatropha Curcas. Diz-me o instinto que se ganha dinheiro com certeza nos próximos meses vendendo velas...

Ah!, tivesse eu o faro de um Napumoceno da Silva Araújo que também importaria uns 10 contentores de leques e abanadores para fazer dinheiro neste Verão. Da China, para ser mais barato e democratizar o ventinho fresco. Nada de elitismo neste negócio. Afinal, "tud cristõn, tud cimbron, tem direito a se gota d´ar...". Pressinto coisas num futuro próximo. Cidade sem luz, calor infernal, matraca de geradores, suor escorrendo, fome de vento, oli lééééque!, ventoíiiiinha!, bonito e "balaaaaato", Pressinto coisas...

Entretanto abro o jornal por ler, da semana passada. Nos classificados um anúncio: "Caro consumidor, mantenha as suas contas de luz em dia para evitar cortes de luz e dissabores (...)". Assim, belo como um poema. Enternecedor, diria até. Emocionante.

E eu, porra!, que hoje não tenho luz, que anúncio devo colocar nos jornais para a Electra??! Aceito sugestões...


("Luz & Forma" - foto de PD)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sombras na minha Cidade

As palavras. Ainda as palavras. Melhor: a ausência delas. Nem é letargia, sequer posso lamentar falta de tempo por esses dias, menos ainda motivos e rostos por quem e para quem se escreve. Nada disso. A ausência apenas. A folha vazia - outrora angústia no ecrã em branco, hoje uma calma contemplação do deixar andar. Deixar-se estar na cadência agora lenta das horas. Sem pressas. Tranquilamente. Sossegadamente.

Não as procuro, as palavras. Em vez disso, contemplo-as. Em silêncio. Enquanto na rua sob a minha janela passeiam sombras. Reais, essas sombras que por mim passam, caramba! Dá até para lhes sentir o gesto, a textura, o mundo à cabeça e as contas por pagar. E - vejam só! - arrastam pelos pés os corpos erectos como quem carrega um fardo! Triste sina a dessas sombras que têm que carregar o Homem pelas ruas da cidade... Enquanto este basofia pelas esquinas sua herança de Adão e Eva!

E agora, porra!, esta angústia de não saber ainda onde me deixou a minha sombra...


("Sombras pela rua" - foto de PD, algures sob um prédio em Palmarejo)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma foto sem palavras

Porque ainda me saem enferrujadas as palavras, meu caro Venâncio, deixo-te aqui um post em silêncio...

("Silêncio" - foto de PD)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Relax na tchon d´Holanda....

Queria tanto um poema para este olhar mortiço, esta quasi-candura no passo lento que em mim tropeça numa esquina de Roterdam... Queria tanto - meu Deus! - um simples verso para enquadrar o momento... Quem mo dará - caramba! - este poema por que tanto espero?
("Relax na tchon d´Holanda" - Foto de PD)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O chamado de Dona Canô

Chamou-me ontem a Dona Canô, ali na areia de Gamboa. Chamou-me, sim senhor, a Dona Canô - e como um menino ergui os braços lá bem no alto e gritei para que todos ouvissem: oli´m!

Chamou-me a Dona Canô pela voz da Daniela Mercury - Ah!, Daniela dos meus sonhos ao desembarcar ainda adolescente ali no Rio anos atrás, com amores de Romeu e Julieta ainda na minha mala de poeta!

Dona Canô chamou,

Eu vou

Dona Canô chamou
Eu já me vou, Dona Canô!



(Aqui deste lado, Daniela, a Dona Canô que me chama traz uma certa vivência crioula no olhar, e responde pelos nomes de Silva de Junzim de Pólina, Nhá Mari Ricarda, Dinha Arcângela, Didita, Nhá Dadá lá de Água Gato, mulheres destas ilhas em construção...).

Dona Silva chamou,
Eu vou
Dona Silva chamou

Eu já me vou, ó Dona Silva!



(Foto magistral do Eneias Rodrigues...)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Três notas avulsas em jeito de batidas à porta

NOTA 1. São para ti estas palavras, naturalmente. Desarrumadas talvez, despretensiosas sempre, intimistas se calhar, vigorosas quando necessário, mas leves como um beijo ao entardecer. São para ti - e por ti - estas palavras que aqui deixo. Falar-te-ei por vezes de coisas simples: os rumores de Quebra Canela às 6h da manhã para espantar o tempo, algum sorriso entre a multidão que me ficou colado à retina, um verso assim de repente, gentes da ilha, coisas minhas. Vez ou outra partilharei contigo um porra, merda, puta-que-pariu - sem pejo! - assim em jeito de desabafo. Divagarei outras vezes: como um moço doido, dirás certamente. Mas serão sempre para ti estas palavras. Sempre!

NOTA 2. Hoje, para te celebrar, irei fartar-me de poesia até não poder mais. Porque é Terça-feira (podia ser Segunda ou Sexta, se calhar até Domingo - mas é Terça-feira, caramba! Que mal há nisso?!). Porque descobri o poeta - não sob as luzes das manchetes, dos prémios Camões ou das lambeduras entristecidas mas na estante do Olavo ali em Terra Branca, no meio de palavras jogadas ao vento numa noite de Sábado. Haverá poesia hoje à tarde, portanto. Com peixe seco assado e um gruguim de sintanton, naturalmente...

NOTA 3. E assim, parafraseando o grande Nelson Gonçalves, dá-me ganas de bradar nesta hora:

"Blogmania,
aqui me tens de regresso
e suplicando te peço
a minha nova inscrição.

(...)
Ele voltou
o bloguémio voltou novamente (...)"

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Estarei de regresso em breve...


A 01 de Junho próximo estarei de regresso a este meu espaço... Porque senti saudades - confesso! -, porque faz-me falta esta partilha, este viajar intimista aos recôndidos da alma, da ilha, dos meus silêncios. Porque escrever - disse-o aqui certa vez - é quase que apalpar o silêncio que se forma ao nosso redor. É acariciar a memória com ternura e um quê de saudosismo, é envolver o tempo numa auréola de fingimento (já dizia o outro que o poeta é um fingidor...), é temperar a monotonia do ponteiro do relógio com o olhar da moça que nos atravessou pela frente ali ao dobrar a esquina, é tactear o sossego do cair da tarde em acordes dó-ré-mi de um violão que apenas pressentimos.

(Neste preciso momento enquanto escrevo, leva-me no tempo a voz dos Livity ao terraço de Djô Mecânico ali em Cabouco de Cosco nos idos dos anos 90, onde contigo dancei "Rosinha" pela primeira vez - lembras-te? Nem percebeste meu peito tum tum tum que nem panela de pápa ta rompê ferva, na ansiedade adolescente dos meus primeiros amores...)

Estarei de regresso a 01 de Junho de 2010, prometo...


(Foto: "Há sempre uma saudade qualquer ao cair da tarde. Sempre" - Foto de PD)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ultimo post

Tinha que terminar com poesia, este meu cantinho intimista, claro...



TESTAMENTO

(Da antologia “Caminho di bai”)


Meu último poema

será um panfleto.


Dou-vos minha palavra!


Depois disso

serei apenas osso

……………..ou fosso

……………………..ao redor

os passos cronometrados

pelo bater louco

do meu coração em frangalhos.



Texto: Paulino Dias
Foto: Helder Paz Monteiro



**THE END **

.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“Crónica de um adeus anunciado…”

Car@s amig@s,


Escrevo estas duas regrinhas para vos dizer que encerrarei as postagens no “Blog do Paulino” a partir da próxima Segunda-feira dia 11/08. Neste dia, escreverei aqui o meu último post, em jeito de despedida deste meu cantinho intimista. O blog continuará no entanto activado, pelo menos até descobrir uma forma de gravar todos os textos (salvo poucas excepções, quase todos foram escritos directamente no blog, sem que eu tivesse tido o cuidado de ao menos salvar um registo no meu computador… alguém aqui dá uma dica, por favor?).


Alguns irão certamente perguntar porquê. O que é que terá dado na telha daquele moço de Santo Antão, hein? Encerro o blog porque sem dramas assumo que para mim é chegado o fim de um ciclo, no que diz respeito ao exercício da escrita. A vida é feita de ciclos, de etapas que se substituem e às quais nós naturalmente devemos ajustar os nossos passos, com um sentido crítico que nos permite reinventarmo-nos continuamente para não perder a humildade e a poesia da descoberta de outros rumos. Encerro este ciclo com tranquilidade, à semelhança do que fizera antes no fim de outras etapas, como quando decidi deixar de participar no belíssimo programa “Música & Poesia” da RCV ainda no início dos anos 90 do século passado, ou quando terminei a minha coluna “Gentes das Ilhas” no ASemana Online.


Desde que escrevi aqui o primeiro post, ainda meio a medo, nos idos de Novembro de 2006 (caramba!, como o tempo voa…), e ao longo de mais de 130 posts, o “Blog do Paulino” tem sido para mim um espaço de escape e de partilha. Sobretudo partilha. Partilhei convosco na intimidade deste cantinho pequenas alegrias, coisas boas da vida, imagens que me marcaram, sons e cheiros de caminhadas pela ilha de Santiago, alguns momentos menos bons de saudade, tristeza e angústia – às vezes até, melancolia -, insonias, desabafos desaforados, chorei por vezes ao escrever o texto (está bem, confesso!, rs), dei também algumas gargalhadas, senti raiva, que outras vezes manifestei através de uma subtil ironia, tivemos também alguns debates muito ricos e interessantes, e outros devidamente abortados por absoluta falta de respeito ao outro e nobreza intelectual. Ah!, também amei - claro! – e mandei recados de ternura e de saudade. E entre a cidade e os recantos mais intimos da alma, fui de permeio fazendo publicidade da minha ilha Santo Antao e das gentes do meu cutelo Faja Domingas Bentas...


Muitas vezes, esta partilha se revestiu de alguma delicadeza, por navegar numa linha ténue entre o íntimo/privado e o público. Desde o início sempre tive a noção clara deste risco e assumi-o com tranquilidade, com a plena consciência do que representava em termos de exposição pública do que me ia no mais fundo da alma.


Mas o que foi para mim muito gratificante foram as relações que se foram construindo por causa ou através deste blog. Tive a felicidade de me “cruzar” virtualmente com pessoas extraordinárias e com quem aprendi muito (e vou continuar a aprender, claro!, porque continuarei a visitar os meus blogs de referência). E ainda tive o enorme prazer de conhecer pessoalmente vários destes “amigos virtuais”, como o Abraão, o Filinto, a Guida, o Tide, a Soraia, a Eury, o Val, o Benvindo, o João Branco, o Kaká Barbosa, o César, a Velu, o Djinho… O Olavo, o Djoy, a Vivianne, o Afonso e a Guida Mascarenhas já os conhecia, mas estabeleceram-se outras dimensões de relacionamento aqui na “blogosfera”.


Por último, porquê encerrar o blog numa Segunda-feira? Sei lá! Se calhar porque – ao contrário de M’nininha de Soncent (rsss) – sempre tive uma certa predilecção pela Segunda-feira depois do fastio dos Domingos à tarde. Se calhar porque no meu íntimo sempre esteve esta coisa masoquista de “matar o blog” numa Segunda-feira de Agosto. Se calhar porque o número 11 tem algum significado místico que ainda não descortinei, para além do “Léla” como o bradávamos nos jogos de loto lá em Fajã…


A todos, um muito obrigado sincero pelas visitas e pelos momentos de partilha. Um abração amigo,


Paulino

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pressa...


Às vezes acordo com uma profunda sensação de pressa. Como se, do nascer do dia ao bater das doze badaladas da meia-noite, tudo fosse uma espécie de dança cósmica sob a batuta de um ponteiro de relógio. E nem posso dizer – como o Vinicius – que “minha existência sem ti, é como olhar para um relógio apenas com o ponteiro dos minutos”.


Tenho pressa, confesso. Tenho pressa de amar – antes que morra em mim a poesia. Tenho pressa de me lambuzar na lua cheia – antes que sucumba o adolescente eternamente apaixonado pelas coisas belas da vida. Tenho pressa de apreciar o quadro do Olavo na parede da sala – antes que me desapareça a ternura pelo azul. Tenho até pressa – caramba! – de escrever meu último poema (o tal que será um panfleto, para que depois possa seguir em paz com os deuses todos cá da freguesia), de rabiscar meu último discurso, de assobiar minha última canção aqui na varanda com o velho violão a tiracolo.


Já me dizia em tempos o Aristides, que em mim tudo foi precoce, tudo é precoce: o primeiro choro, as primeiras letras, o primeiro canudo, a primeira aliança, o primeiro adeus, e até o primeiro silêncio entre quatro paredes sós. No meio de duas gargalhadas, ficou o arrepio pela espinha. Será também precoce – chiça! – a partida e o tal desejo de fugir?


Talvez por isso, este relógio a martelar-me incessantemente o ombro esquerdo. Compreendes agora, minha amiga, esta pressa de amar os teus olhos caboverdeanamente verdes?


.

Com este calor dos diabos aqui na cidade grande, o que eu queria agora era...

… como diria o vizinho Café Margoso – e bô?

.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ah ah ah ah ah ah!!!!!!!!!!!!!

Em resposta a este post, o Sr. Casimiro de Pina respondeu assim: (clique aqui).

Comments, pessoal?? Nao eh uma delicia, hein?

.

sábado, 2 de agosto de 2008

Hoje apetece-me poesia...


Hoje, com este Sol de Sábado a lavar-me o rosto pela fresta da cortina, apetece-me poesia. Lambuzar-me todo de poesia, barbear-me em poesia, escovar os dentes com poesia enquanto me espreita o moço do outro lado do espelho com uma inexplicável alegria na retina dos olhos. Hoje – não há pilha de corpos esqueléticos em pós-agonia nem Deus nenhum que me impeçam! – vou embebedar-me de poesia…


Abro ao acaso A cabeça calva de Deus só para saber pelo Corsino que


“Mulher! Quando o céu da tua boca

Arrasta o corpo da terra

.................Até a goela da água longínqua

A febre conta no arco-íris

..............................Da carne que sangra

..................A montanha roída dos dentes…


E da cicatriz da mão

.................................brotam raízes

Que vicejam a memória dos séculos…”


Convence-me o Valentinous logo depois que também eu – sem o saber, caramba! - tenho o infinito trancado em casa. Segreda-me devagar ao ouvido (quase num sopro),


“Sabemos o que Deus no céu achou.

Não sabemos é do que na terra anda à procura”


Poesia, Velhinho, poesia. Ele por cá, anda à procura é de poesia, moço! Depois que Adão fez cagada lá no Paraíso e o soldado romano trespassou Seu filho com a lança, só a poesia é capaz de lhe curar a dor, digo-te.


Ah!, podem vir agora as deusas todas de navalha em punho para me dilacerarem a carne. Podem vir as hordas de bruxas e feiticeiras com suas poções, suas maçãs envenenadas! Podem vir!


“Eu estarei de mãos postas

à espera do tesouro que me venha na onda do mar,

E minha principal certeza

é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos…”



("Ilha encalhada" - Foto de PD)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Para que nao volte a acontecer!

"Isso" aconteceu na Europa "civilizada", apenas sete decadas atras:


E "isso" foi obra de soldados da nacao mais "democratica" do mundo, ha quatro decadas:

Sem palavras!! Oh Casimiro?

.

País de curto prazo (1)

Há dias, ao ouvir na rádio a intervenção de um deputado na Assembleia Nacional sobre a necessidade de uma estrada para o cutelo do seu eleitorado, quase fui às lágrimas outra vez, de tanta emoção. Digo, de tanta tristeza! Dizia ele mais ou menos por essas palavras, que a população do seu concelho já conhecia o asfalto, já sabia o que era o asfalto, e que por isso EXIGIA uma estrada moderna, uma estrada asfaltada!


Não pude deixar de pensar no conceito do “moderno” que está a invadir estas ilhas, influenciando a tomada de decisões que mais cedo ou mais tarde acabarão por afectar a todos nós: se não directamente como utentes, então como contribuintes, pois que como dizia o outro, “em economia não existem almoços grátis”…


Bolas!, às vezes penso que por cá, não obstante os alertas do Sr. Presidente e do Sr. Primeiro Ministro, ainda não nos demos conta da profunda transformação que o mundo está a atravessar ou em vias de encarar. Ainda não estamos suficientemente mentalizados que as bases desta “civilização do petróleo” em que vivemos estão a tremer até à medula. Ainda não assimilamos que a confluência de i) aumento acelerado da procura, puxado pelo crescimento das economias de uma mão cheia de “gigantes emergentes” (China, Índia, Brasil, Rússia…); ii) estimativas de redução drástica das reservas de petróleo num horizonte de 50 anos, conjugado com custos crescentes de produção; iii) corrida dos especuladores financeiros ao petróleo como alternativa de investimento – irão afectar cada vez mais o nosso estilo de vida e as fórmulas de tomada de decisões que temos vindo a adoptar até agora. Desde a camisinha aos transportes, desde o creme de barbear às sacolas de plástico, desde a electricidade aos t-shirts de tecido sintético, todos os derivados do petróleo – sim senhor, incluindo o asfalto betuminoso! – estarão sujeitos a crescentes pressões inflacionárias.


Mas parece que nós por cá continuamos a assobiar para o lado entre dois arrotos de cerveja com asinhas de frango grelhado, que isso é coisa dos gringos lá fora… Continuamos a bradar loas ao asfalto como sinónimo de modernidade, mesmo quando sabemos que o custo do metro quadrado de pavimento com asfalto betuminoso já ultrapassou o seu correspondente em calçada (precisamente por causa do aumento do preço do petróleo), e que as estradas asfaltadas requerem o recarregamento periódico da camada de asfalto, fazendo com que a sua manutenção seja muito mais cara - e complexa pois que exige empresas e equipamentos especializados.


E assim vamos “modernizando” estas ilhas. Já “modernizamos” as ruas do Plateau, um verdadeiro crime historico-paisagístico, “modernizamos” as ruas de Mindelo, enterrando sob o asfalto a poesia de que nos falava B.Léza, Frusoni, António Aurélio Gonçalves e os outros, estamos a “modernizar” a Praínha, e até vamos “modernizar” o belíssimo vale de Ribeira da Torre, em Santo Antão. Enquanto isso, de olhos postos na evolução do preço do petróleo, alguns países na Europa estão a arrancar o asfalto em algumas das suas cidades historicas com interesse turístico, substituindo por calçada artística, a Índia esta a pensar utilizar pavimentos de betão nas novas estradas em vez do asfalto, e nós – vejam só! – começamos a exportar pedras…


É caso para se dizer, somos mesmo um PAÍS DE CURTO PRAZO, ou nao?



("Abre o olho meu povo" - foto de Roberta Jardim)


terça-feira, 29 de julho de 2008

Uma não-crónica sobre a última caminhada

Desta vez não vou escrever nenhuma crónica, vou logo avisando. Bastam as imagens abaixo, belissimamente captadas pelo Hélder Paz.


Não direi nada sobre o verde que já desponta nas encostas da Serra, calo-me extasiado no meio da neblina onde nos transformamos em vultos caminhando trôpegos de verde e de Santiago, não vou sequer escrever uma palavra sobre Nhá Joana, a minha patrícia de Lajedos em Santo Antão que fui descobrir lá em Figueira das Naus, para onde trouxe-lhe o destino e um cretchêu badiu lá das roças de São Tomé nos anos 60 do século passado. Nunca mais pôs os pés na ilha – diz-me entre um abraço e um suspiro silencioso…


Também não vou falar da chuva miudinha quase à chegada do povoado, que nos refrescou a pele suada e a nossa caboverdeana ambição de boas às-águas. Nem tampouco da bela praia de Ribeira Prata para cuja água morna nos atiramos feito meninos perdidamente felizes entre a chuva que agora caía a píncaros e as gargalhadas. Sobre o pontche da Maria Antónia e a cachupa temperada com carne de porco, nem um pio.


Mas poderei falar sim senhor – se me ajudar “o engenho e a arte” - do batuque improvisado ali no bar da Vika, onde a moça prende nas ancas o panu di terra quadriculado de vozes ancestrais, que nos reconstrói a síntese e o espírito da caminhada. Ali desembocamos todos, mais as nossas matrizes e as nossas almas de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santiago, Fogo, Guiné-bissau, Portugal, Escócia e EUA, convergimos todos si-len-cio-sa-men-te para o batuque, o rodopiar de ancas corpo & nervos, a alma em transe e o olhar parado a fitar qualquer coisa indistinta para lá da orla desta ilha, para lá da linha do horizonte…


Hoje, caros leitores, não direi uma palavra. Bastam as imagens abaixo, do Helder Paz Monteiro, escritor de imagens e nosso colega de caminhada…






.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Telefonema

Hoje não queria ouvir este telefonema, mãe. Não desta forma, com a brutalidade que por vezes a notícia se reveste.


Pela segunda vez o tanque de Boca de Fundo cobra o seu tributo. Duas vezes, o mesmo grito, quase à mesma hora, caramba! Nesta Segunda-feira, mãe, com este sol de Julho a entrar-me varanda adentro na capital, eram outras as palavras que eu queria ouvir…


Descanse em paz, Menél de Berrnalda. Fica-nos, todavia, o teu sorriso tímido como um verso inacabado, em todas as esquinas de Fajã e Chã de Henrique…

.




domingo, 27 de julho de 2008

Notas avulsas

1.

Queria a minha mente apenas dois minutos e trinta segundos de paz nesta tarde de Julho. Fugir de ti desarvorado como se das pragas que sobre o Egipto se abateram entre duas gargalhadas de Deus Nossenhor. Fugir, fugir, fugir, e quando me alcançasse o tédio – ou a desesperança, talvezrecostar meu ombro esquerdo no chão empoeirado de uma rua qualquer da cidade e ficar ali quieto como um poeta em lá menor, vendo o mundo a desfilar-se horizontalmente no lado de lá da tal ponte.


2.

Obriguei-me a ver o basalto negro da estrada entre Ribeira Prata e a capital nesta tarde de domingo. Segurei a fronte com as duas mãos em concha para que pudesse perceber a chuvinha miúda que caía no outro lado do pára-brisas. Cerrei depois as pálpebras para que me invadissem os acordes da música na rádio do carro. Pude até ouvir a voz e a relíquia. Ku furmiga ku tudo gosta. Ku furmiga ku tudo gosta


3.

Mas a minha mente estava em ti. Inexoravelmente. Melhor: tu estavas em mim. Nos meus nervos dormentes sob a pele molhada ainda de chuva & sal. Na ponta de meus dedos a tamborilar qualquer coisa no recosto da cadeira em frente onde adormece o Hermano. No descerrar lento dos meus olhos que te procuram para lá do nevoeiro que nos nega a vista sobre o planalto de Achada Lém. Até no besame / besame mucho / como se fuera esta noche la ultima vez que comecei a assobiar baixinho para espantar a angústia de te saber distante.


4.

Estavas em mim. Todavia, distante como a palavra que nunca veio…



(Foto daqui)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Convite: caminhada de Julho


Agora que a "chuva amiga ja falou mantenha", nada como uma caminhada pelos cutelos e achadas de Santiago para beber do verde & da vista. O relax e as gargalhadas sao por conta do grupo...rs.

A caminhada deste mes dos "Caminheiros Sem Fronteira" sera no proximo domingo dia 27, entre Serra Malagueta, Curral de Asno, Figueira das Naus, e Ribeira da Barca. Aproximadamente 3hs. A partida da Praia sera as 06h30mn, com concentracao no PV da Shell de Cha de Areia.

Estao todos desafiados, erh, quer dizer, convidados...rs. Quem quiser participar, basta enviar-me um e-mail (paulinodias21@yahoo.com) ate as 12h00 de Sexta-feira 25/07 (por causa da organizacao logistica).


Abracos,

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Eu ja fui piloto na Segunda Guerra Mundial...

Igualzinho... eh eh eh.

Vejam a historia aqui. A Carla tambem ja tinha esgrovetod este assunto. Depois dessa, vou dar uma olhada na minha arvore genealogica a ver se nao terei algumas costelas la pras bandas de Sao Nicolau, caramba!

.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Um post de má-criação

Hoje, assim sem mais nem menos, dá-me ganas de rasgar o poema e a memória. Atirar aos porcos todas as consoantes desta madrugada insone, desfazer em mil pedaços o verso e o acorde que me apoquentam o sonho. Dá-me ganas de mandar à merda esta monotonia toda, este não-ser que me encosta à parede do quarto manchado com o sangue da meia dúzia de mosquitos que aqui vieram se suicidar – outra vez, porra! – entre a tinta branca e a palma da minha mão direita.


Faz um calor dos diabos aqui dentro. Não adianta acelerar o ventilador, escancarar as janelas e o sopro, há sempre este bafo que me esmaga entre o lençol e as gotas de suor que me percorrem a pele. Um outro mosquito passeia o zum-zum na borda do meu ouvido esquerdo. Que no direito, caraças!, tenho o Brother in arms a acariciar minhas memórias de rebelde-sem-causa a partir do radiinho de pilhas made in China. (…) There’s so many different worlds / so many different suns / and we have just one world / but we live in different one’s…


Yá, meu caro Knopfler, vivemos em mundos diferentes, brother. Não devia ser assim – ponho-me a matutar nesta madrugada de mosquitos, calor, insónia e nervos em rebuliço – não devia ser assim…


E agora que "o Sol está a descer para o inferno e a Lua está cada vez mais alta no firmamento", abro o computador e escrevo – impotente, enquanto o relógio marca o compasso do tempo – mais um poeminha de merda!


Tcham ba durmi que ja ta tarde... Porquê eu – chiça! – não consigo ter um tintinho assim de fé, ahn???


.

(Foto de Armando Cardoso)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

150 anos da Praia: Crónicas da cidade 4


Podem,

sim senhor!,

a morte e a sandália made in China partilhar o mesmo tecto

nem que seja na esquina da outra rua.


Ora bolas!, que mal há nisso?!


Afinal,

dá sempre jeito um pouco de glamour

quando se entra no Reino dos Céus…



("Partilha" - foto de PD)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

"Afronamim" do Hernani: em jeito de desculpas

Alô, Dulcineia,


Com um indisfarçável rubor nas faces, devo confessar-te que tens razão. Não estive na apresentação do CD do Hernâni aqui na Praia…


Poderia te dar mil e uma razões: o trabalho, os afazeres, o cansaço depois de um dia cheio de pequenas azáfamas, o sono que me prendeu à porra da cama entre uma notícia e outra do telejornal, e até o béééééé inquilino do 3º andar do meu prédio que não me deixa dormir direito e que me obriga a ficar com o relógio biologico todo escangalhado.


Mas assumo apenas que de certeza perdi um grande espectáculo. Resta-me correr amanhã logo cedo à loja de CDs no Plateau para comprar o meu Afronamim, fechar os olhos na varanda à tardinha com um gruguim de Sintanton na mão direita, os pés estendidos preguiçosamente, e deixar que os acordes do Hernâni & Companhia acariciem esta minha pele ao de leve…


Sem a tua permissão, publico aqui o comentário que me deixaste sobre a noite mágica.

Um abraço,

……………….

“ Bom dia Paulino,
Procurei-te pelos rostos de ontem, mas não te vi.
No meio daquela multidão, tal como apaixonada adolescente procurei-te.
Não creditei que não estivesses presente…
Pensava eu, “quem vai descrever amanhã a noite de hoje?”. Ai se o Paulino estivesse aqui, com certeza amanhã ao abrir um desses inúmeros sites de consulta obrigatória, encontraria algo publicado por ti, sobre o assunto. Rever-me-ia nas tuas palavras e poderia re-assistir o show do Hernâni de ontem.
Ele merece uma crónica, mas uma crónica escrita com amor.
Era ver os rostos maravilhados, os homens que normalmente se embriagam com as curvas das mulheres cabo-verdianas, e se deixam encantar pelo seu doce perfume, ali atónicos, parvos, despudorados apaixonados pelos sons que saíam das mãos dos quatro.
Sim, o Hernâni não poderia estar só, não é da sua natureza… estava acompanhado e muito bem acompanhado, dedos mágicos…
Paulino, perdeste o momento em que as conversas se calavam, seguidos de gritos/uivos de prazer… em que amigos se entreolhavam e continuavam balançando o corpo, pés, mãos ao ritmo daquele manjar musical, sem nada dizer…
Só eles reinaram ontem…
Paulino, se me disseres que lá estiveste… não me assustará, poucos poderão dizer quem esteve ontem no lançamento do Afronamim
O som ofuscou nossos olhos, calou nossas línguas, removeu nossos sentidos…saí encantada, estou assim, recuperando-me!
Obrigada Hernâni.”

..............

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Debate interessante e pertinente

O post sobre "A cultura, (...)" esta a gerar um debate interessantissimo entre um Anonimo e o Tide do Pedra Bika sobre a Economia da Cultura e outros pontos. Confiram nos coments.

E voce, o que pensa disso?

.

Béééééé!

Acreditem-me, há um cabrito no meu prédio. Algures entre o 3º e o 4º andar, em pleno coração de Palmarejo… Béééééé!


O berro entrou-me assim quarto adentro hoje logo de manhãzinha por volta das 06h05, um pouquinho depois de o despertador acordar-me para o meu banho no Quebra Canela. Bééééééé. Entre a modorra do sono ainda, primeiro imaginei estar lá no planalto de Fajã Domingas Bentas em Santo Antão. Mas não, dei por mim a pensar, faz duas semanas que regressei da ilha e além do mais meu velho deixou de criar cabras diazá. Se calhar é o rádio que deixei ligado em cima da mesinha de cabeceira e devem ser os moços do Backstreet Boys a berrarem com os olhinhos melados de ternura olha o bódeeeeeeee, bééééééééé! Também não, não são os Backstreet Boys. A realidade veio entrando assim crã: é deveras um cabrito. Justo aqui no prédio, caramba…


Bééééééé! Béééééé!


quarta-feira, 9 de julho de 2008

A cultura, os loirinhos de olhos azuis, e nós...

Ao ler esta afirmação do Sr. Primeiro Ministro (que sublinho inteiramente), não pude deixar de ir cavar no meu cacifo de “documentos-pendentes-para-tratamento-posterior”, este bilhete de entrada nos monumentos da Cidade Velha – sem dúvida um dos marcos mais relevantes que moldaram a nossa Cultura e Identidade e que todos os caboverdeanos, sem excepção, deviam ter o direito (e o prazer, bolas!) de conhecer. 500 paus paguei por este bilhete há algumas semanas atrás, Sr. Primeiro Ministro…

Claro está, veio logo esta minha mente perversa de economista com as suas continhas, para perturbar-me o que devia ser a magia do momento e a poesia. Com uma elevada percentagem da população do país considerada “pobre”, quantas famílias podem, neste momento, “dar-se ao luxo” de gastar 500$00 por pessoa para desfrutar de umas horas entre os monumentos da Cidade Velha? E se a família tiver, digamos, quatro membros? Parafraseando o meu amigo João Branco, à melhor resposta ofereço um café e uma banana “Prestige”!


Sou um defensor da economia da cultura, Sr. Primeiro Ministro. Que a cultura também pode (e deve!) ser utilizada como factor de desenvolvimento – material, social, mas sobretudo pessoal e intelectual. Mas, na minha modesta opinião, não é transformando a cultura em produto de luxo que vamos poder atingir este desiderato, pois que corremos o risco de promover a dissociação entre o povo e a “sua” cultura, transformando-a apenas em algo artificial e sem “alma”, ou produto mercantil “para os outros” (isto é, meramente para os turistas loirinhos de olhos azuis com as suas câmeras Cannon a tiracolo - ou para os que podem pagar).


E eu que vivia exortando os meus alunos a visitarem os nossos lugares históricos e de relevância cultural como parte da sua formacao como gestores…


Já agora – e porque cidadania não é apenas criticar mas também participar na busca de soluções – permita-me sugerir que se adopte o que já vem sendo feito noutras latitudes: os cidadãos nacionais passarem a ter direito ao acesso gratuito aos seus monumentos históricos. Assim, quem sabe não retome um velho hábito meu de sentar à tardinha num dos extremos da Fortaleza da Cidade Velha ta oiá Sol ta cambá trás de vulcão de Djar Fogo

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Um poeminha antigo...



23:46

Beijos dados
mãos dadas
sexos dados
desacordados


cartas ao vento
relíquias do tempo
entendo
teu gemido erótico
no quarto penumbrento da periferia


o telefone mudo
imundo
o silêncio no outro lado
mundo
triste
vozes em riste
acusando
meu polegar de milho estendido
gatilho entre os dedos
medos intermináveis
cataclismos
pesadelos
sonhos inacabados


pum!


Na mesinha de cabeceira
o despertador marca 23:46

Acendi a luz
e rabisquei mais um poeminha de merda


Paulino Dias


(Foto: "Praia Azul" - de Nana Sousa Dias)


segunda-feira, 30 de junho de 2008

Uma caminhada. Um gesto.

Foi deliciosa esta caminhada de Junho, caramba! Primeiro, o próprio tempo meio encoberto, que noutras ocasiões diria que triste, mas que neste domingo percebi como que nos protegendo do Sol abrasador doutras latitudes. Depois o trajecto de hiace até Mato Baxu, mais as gargalhadas da São e da Raquel e as relíquias musicais do Tchico no toca-fitas do carro, que nos transportava para a memória de outros tempos.


E a caminhada propriamente dita… O belo vale de Tabugal que se recorta a nossos pés centenas de metros depois do povoado, a pequena descida até o fundo, e a surpresa no meio da terra acastanhada que nos cercava: verde. Verde, verde, verde! Água a escorrer de despenhadeiros que me sabem à outra ilha, plantações de inhame, agriões a perder de vista, mangueiras, canaviais, tanques de água – onde minha alma de menino da ilha não resistiu, obrigando-me a atirar o corpo para o meio da água tépida -, e mais água, e mais inhames, e mais verde, e mangas maduras, e água de coco, e mais bocas aberto de espanto e muda contemplação, e mais poesia, e mais ilha. Ilha de Santiago. Ilhaaaaaa!


Mas sobretudo o gesto, mais adiante. A solidariedade demonstrada pelos membros do grupo, na escola de Charco, quando entregamos às dezenas de crianças humildes os materiais escolares que recolhêramos para lhes oferecer. A magia do momento de dar um pouco de nós. Nestes tempos de individualismos exacerbados e egos que quase explodem sob a luz dos holofotes, crescemos sim senhor como seres humanos, sempre que damos um pouco de nós sem esperar nada em troca. Ali no silêncio do povoado – quebrado apenas pelas vozes infantis entoando-nos “Óh maleão maleão” e “Canta irmão, canta meeeeeu irmão!” – crescemos um pouco neste último domingo, alimentamo-nos de vidas outras que não a nossa pacata rotina de casa-trabalho-cometa-casa, lambuzamo-nos de estórias crãs que nos devolvem irremediavelmente à nossa condição de peças de um conjunto muito maior que a ponta do nosso umbigo, deglutimos silenciosamente a humildade – e a esperança, porra! – que aqueles olhares nos impunham, lá do chão onde se sentaram para nos ouvir as palavras. Ao menos nesse dia, felizmente, não foram apenas palavras o que receberam aqueles putos de Charco…


Deixo-vos com as fotos. Pena que a porcaria da máquina tenha esgotado a memoria sem que eu pudesse captar todos os momentos. Vou esperar pelas outras fotos do Helder Paz para partilhar convosco. O momento, o gesto, e o sentir. Inté.



(Fotos de PD)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Caminhada de Junho: mês das CRIANÇAS

Este mês, também teremos caminhada pela ilha de Santiago. Será no próximo domingo, dia 29, com partida a partir do largo do Centro 1º de Maio na Praia às 06h30mn. Desta vez o percurso será MATU BAXU - RIBEIRA DE TABUGAL - CHARCO/JOÃO GAGO - RIBEIRA DA BARCA. Aproximadamente 3h30mn de muita diversão, gargalhadas e "descobertas".

Porque este mês é o mês das crianças, e porque um dos objectivos do grupo dos "Caminheiros" (além do divertir-se ao mesmo tempo que se exercita, se conversa e se explora a ilha), é precisamente reforçar a consciência social e ambiental dos participantes, decidimos organizar um convívio com as crianças da escola de Charco, uma comunidade com várias carências e que vive sobretudo da agricultura e da apanha da areia.

Durante o convívio serão entregues vários materias escolares, livros, t-shirts, etc., recolhidos entre os participantes. Vamos aproveitar igualmente para organizar uma actividade de sensibilização ambiental, sobre a problemática de apanha de areia nas praias.

Este domingo vai ser "rei di fixe"!!!!! Prometemos trazer fotos para a malta, ok? Quem quiser participar, ainda vai a tempo. Basta enviar-me um e-mail (paulinodias21@yahoo.com), o mais tardar até às 12h00 de Sexta-feira 27/06.

sábado, 14 de junho de 2008

País feliz....

De acordo com o ranking deste site, Cabo Verde é o 46º país mais feliz do mundo, atrás de países como a Colómbia (2º), o Vietnam (12º), Filipinas (17º), e China (31º). Mas estamos à frente da Argentina (47º), Ilhas Maurícias (55º), Áustria (61º) e Suíça (65º). Ah!, e dos Estados Unidos (150º). Na Africa somos o terceiro pais mais feliz, atras apenas de Sao Tome e de Marrocos. Segundo este ranking, o país mais feliz do mundo é Vanuatu.


O “Índice de Felicidade” referido pelo site reflecte a média de anos felizes produzida por uma sociedade, nação ou grupo de nações, por unidade de recursos planetários consumidos. Isto é, representa o grau de eficiência com que os países convertem os recursos finitos do planeta em bem estar para os seus cidadãos.


Vá-se lá entender estes rankings… Mas isso dá que pensar, não dá?


Aposto que os políticos cá do burgo já já vão incorporar isso nos seus discursos, eh eh eh…



.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Cidadania é sobretudo ACÇÃO!

Pessoal,

Já está a circular a petição online sobre a medida de suspensão das alunas grávidas das escolas, em reacção ao caso da aluna Ana Rodrigues, do Paúl - Santo Antão - denunciado pela Eury neste post.

Porque SER CIDADÃO deve ser sobretudo AGIR, porque não podemos assobiar para o lado perante uma situação que poderá determinar o rumo da vida da Ana Rodrigues, mas acima de tudo, porque pensamos ser o correcto a fazer, convidámo-los a assinar a petição. Clique aqui.

E aos colegas bloguistas, exorto a fazerem o máximo eco possível desta acção. Vamos nessa onda, malta?

Um abraço cidadão,

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Outras frentes!

Pronto! Passou o momento triste. Porque é preciso, porque há outras frentes, outras lágrimas e outros dramas para combater, outros momentos por que lutar. E estes, diga-se de passagem, ainda mais urgentes porque encerram escolhas entre a vida e a vida: a vida em potência e a vida que se oferece. Como o grito de alerta que nos vem deste post da Eury.

O problema contudo ultrapassa as delimitações deste caso isolado, Eury. Embora este, pela urgência com que se coloca, deve merecer de todos nós uma acção concreta e imediata para que a aluna em referência não veja o sonho a escoar-lhe entre os dedos, a dias apenas da conclusão do ano lectivo. Já lhe basta o drama de uma gravidez precoce, o "fardo" de uma criança não planeada que lhe pesa o ventre também criança ainda...

O problema é mais profundo, minha amiga. Tem a ver com a (re)avaliação da legalidade e da "humanidade" da medida de afastamento das alunas grávidas das escolas, tem a ver com a desconstrução das famílias e dos seus valores que vimos assistindo diariamente, tem a ver com um certo "lavar de mãos" dos pais no que diz respeito à educação sexual dos filhos (sim senhor, isso não é assunto apenas do Ministério da Educação ou das Delegacias de Saúde!), tem a ver com a passividade de todos nós que tranquilamente vamos assistindo a esses "pequenos" dramas e assobiamos para o lado com a consciência limpa de quem pagou já os seus impostos.

Mas por ora, vamos à acção, Eury. Se pudermos reverter a situação desta miúda - apenas esta, por enquanto - já terá valido a pena o alerta. Juntemos todos as mãos, pois!

sábado, 7 de junho de 2008

Um bilhete entristecido

Passaram-se já tantos anos… E no entanto vem a palavra molhar-me esta manhã de sábado em meu rosto, feito um bilhete entristecido na página 15 do jornal. Mesmo quando sobre o momento preciso do telegrama paira já o desbotar do tempo e o sorriso se fez crosta na velha foto a preto e branco que trago comigo ainda.


Não importa que sejam outros os nomes e os rostos no anúncio da missa do sétimo dia. Não importa que sejam outros os ídolos: será sempre tu. Sempre. Sempre. Sempre! Será sempre o jeito peculiar de sorrir, a maneira certa de olhar, e a saudade.


Tenho imensas saudades tuas, mana…


("Foot print in the sands" - foto de Maria Avelino)


terça-feira, 3 de junho de 2008

Um post adiado: a estrada de Ribeira da Torre, o asfalto e eu.

Exmo. Sr.
Ministro da Infra-estrutura, Transportes e Mar
Eng. Manuel Inocêncio.

Há mais ou menos coisa de dois anos, escrevia-lhe uma “cartinha”, creio que na Revista A Semana, já não me lembro bem, sobre a precisão que uma estrada como deve ser fazia (e faz ainda) ao meu querido Vale de Ribeira da Torre, lá em Santo Antão. Dvéra dvéra, Sr. Ministro, sai ano entra ano, sai às-secas entra às-águas, e lá ficam as minhas gentes entre a felicidade rural das chuvas de Setembro e o credo-na-boca pela estradinha de terra que mal chega uns borrifos vindo de Rabo Curto vai logo desarvorando-se a caminho do mar de Tarrafal, numa pressa de não sei que diga, Sr. Ministro! E por dias a fio, é um tal de saltar de pedra em pedra naquela ribeira, é um tal de defender-se de poças de água que um cristão já nem pode ir de um lugar a outro do Vale na boquinha da noite para ver uma piquena sem correr o risco de um tchluf de estragar calça de óngri, caramba! Isto sem contar com o azar de um vivente que resolve bater a caçuleta bem no meio desses dias-sem-estrada… Já imaginou um enterro no meio de cascalho e água, Sr. Ministro?


De modo que pode imaginar a minha imensa alegria naquela manhã de Domingo ali em Quebra Canela, quando o Dias me diz que já estava garantido o financiamento para aquela estrada, Sr. Ministro. De tão emocionado que fiquei, pus-me logo ali a telefonar feito um maluco à malta de Fajã Domingas Bentas para dar a boa nova, o Pina (que ainda encontrei deitado), o Zim de Yaiá, o meu irmão Naiss… Fiquei doido de felicidade, Sr. Ministro: finalmente o meu velho Junzim de Pólina vai poder andar em uma estrada de jeito naquela ribeira antes de morrer, um desejo que ele me manifestara numa das minhas rápidas viagens à ilha.


Este lero todo, Sr. Ministro, é no entanto apenas um preâmbulo para desabafar consigo uma angústia que me vai na alma há já algum tempo, desde que ouvi uns rumores – e o Dias confirmou-me – de que a estrada todinha vai ser feita com asfalto. Meu irmão, que me deu a notícia pelo telefone, quase não aguentava de felicidade, e dizia-me em catadupa ainda sem perceber o meu silêncio de espanto, que finalmente nós também vamos ter uma estrada moderna elegante e bonita que nem aquês de tchon d’Holanda, moço!, ou como aquela bonitona que vai da Praia à Assomada que nós vemos aqui na televisão. Asfalto? Cortei-lhe a monólogo indelicadamente. Asfalto, dizes-me tu? Até Xoxô?! Sim, moço, até Xoxô…


Exigências legais, diz-me o Dias quando lhe telefono para confirmar a notícia. Estradas nacionais acima de 3kms devem ser feitas de asfalto. Projectei-me então mentalmente para um futuro não muito longínquo quando a estrada for inaugurada, pousei meu corpo justo ali naquela curva em Marrador debaixo da casa do Armindo de Nóna, só para “sentir” – mais do que ver – o quadro que então se desenhava. E vi, Sr. Ministro. A cobra negra de asfalto a penetrar – como uma violação sexual - a passagem do Canto junto ao pé de borracha onde diz a lenda que as bruxas da ilha se encontram nas noites de Lua minguante. O negro do asfalto + o verde que teimam em não combinar mesmo quando tento forçar um quadro feito arte-moderna. A negritude do asfalto manchando uma das paisagens mais belas – senão a mais bela – de todas essas ilhas, Sr. Ministro: a bacia de Xoxô.

Eu não concordo com a solução asfalto, pelo menos para toda a estrada, Sr. Ministro. Falo por mim, naturalmente, e apenas enquanto cidadão nascido e criado naquelas bocanas. Sou contra o asfalto em toda a estrada, pelo seu impacto na beleza paisagística que caracteriza o Vale como um dos mais emblemáticos de Cabo Verde, sou contra, por a longo prazo poder reduzir a competitividade do Vale na atracção de um tipo específico de turismo assente na preservação ambiental e na diversidade paisagística, sou contra porque acredito que existem outras alternativas. E, digo desde já, não me convencem os argumentos de falta de pedra ou de calceteiros para uma obra daquela dimensão: não fosse o vale o que é em termos de stock de pedras, não tivesse o povo daquela ilha construído verdadeiras obras-primas em forma de estrada – só com pedra de calçada – como sejam as estradas Porto Novo / Ribeira Grande, Ribeira Grande / Paúl, Ribeira Grande / Ponta do Sol, etc.


Não sou técnico na matéria de construção de estradas, Sr. Ministro. Falo, por isso, como um simples cidadão de Ribeira da Torre, como um amante das coisas belas da vida, e, se quiser, como um projecto de poeta, que tantas vezes se inspirou sob a sombra das mangueiras no viradouro ali em Xoxô entre dois dedos de conversa com Nhô Djô d’Afonso que-Deus-tenha.

Acredito que existem outras soluções, Sr. Ministro. Uma, a mais radical e corajosa, seria construir a estrada integralmente de pedra de calçada, desde a Povoação até Xoxô. Que se refaçam as leis, pois. Outra, digamos uma solução mista para contornar o impedimento legal, seria levar a estrada com asfalto até Boca da Ribeira de Patinhas, e após a passagem para o outro lado de Biquim, utilizar a pedra de calçada até o final na Bacia de Xoxô. Esta solução, além de preservar o delicado equilíbrio paisagístico no Canto e em Xoxô, poderia ser utilizada criativamente para resgatar e divulgar a “velha” arte dos famosos calceteiros da ilha, através de equipas mistas compostas por artesãos mais experientes e por jovens que, a partir dali poderiam formar micro e pequenas empresas de aplicação artística da pedra – promovendo uma técnica de construção coerente com a estratégia de ecoturismo que se pretende para Santo Antão.

Por isso, Sr. Ministro, perdoa-me o atrevimento de lhe pedir que pense um pouquinho no assunto outra vez. Enquanto é tempo e enquanto as gerações futuras não esfregam no rosto das nossas lápides a factura de uma infra-estruturação não-sustentável. Não mate em mim – com o negro do asfalto - esta alegria de saber estrada nas curvas de Ribeira da Torre, Sr. Ministro...

Cidade da Praia, sobre uma fotografia verde de Xoxô, 02/06/08