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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Estacionar no Plateau...


Depois de ter perdido um bom tempo esta tarde à procura de um lugarzinho para estacionar o carro no Plateau, dá-me ganas de perguntar:

Porquê é que não se aproveitou a reabilitação da Praça Alexandre Albuquerque, já em andamento, para fazer logo ali um estacionamento subterrâneo??!

Com vagas pagas, estou em crer que recuperar-se-ia o investimento em poucos anos. Haja visão de longo prazo, óh Ulisses!!!


Devo andar com a pimenta pelo nariz esses dias aqui no blog...rsss. Se calhar é efeito dos discursos. Prometo voltar em breve à leveza das palavras e à poesia...


(Foto surrupiada daqui)

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A propósito...

... é a isso que me refiro quando falo em institucionalização da pobreza. Sem comentários!!!!!


(Foto tirada numa Câmara Municipal algures nestas ilhas)

sábado, 20 de novembro de 2010

A voz dos outos (3)


"Para vencer a pobreza, não basta lançar projectos gigantescos. Antes de mais, é preciso preocupar-se com o primeiro elo da cadeia: o Homem. Oferecendo-lhe esperança."

(Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006)



Agora que parece já termos entrado a todo o vapor em período de campanha, uma perguntinha que gostaria aqui de deixar aos partidos políticos, candidatos ao meu voto: quais as vossas propostas para reduzir a pobreza em Cabo Verde? Obrigado desde já, aguardo.


("Esperança" - olhar de PD deliberadamente repetido neste blog, depois de ler a frase acima...)


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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A voz dos outros (2)


"Tem de haver movimentos (no sentido de forças, energias, reflexões, formais ou informais) fora desses bunkers partidários que permita as pessoas libertarem-se das amarras e da canga partidocrática, e pensarem por si, partilhando ideias e ideais que contribuam para o exercicio de uma cidadania mais activa e lúcida, e sirva melhor Cabo Verde."

D´zide pa ZCunha...
... e está tudo dito, meu caro!!!! Para ti, esta foto que aqui deixo, dum miúdo algures - poderia perfeitamente ter sido qualquer um de nós - nas ribeiras da minha ilha.


("Menino pensador" - foto de PD)

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domingo, 24 de outubro de 2010

Já estou a ficar cansado...

... e ainda as datas das eleições nem foram marcadas!

Sério, pá!, estou a ficar cansado dos discursos, das palavras ocas, dos mundos que ou são pretos ou são côr-de-rosa (como se não tivéssemos o discernimento de confirmar por nós próprios). Irrita-me já os outdoors espalhados pelas ilhas e que me limitam a vista para a poesia do azul do mar, sabe-me a alguma hipocrisia os sorrisos de ocasião e os braços que se abrem para nos alojar como se tivéssemos sido a vida inteira cómpas de copo & bafa, caramba...

A minha mente não é campo de batalha, meus senhores. Muito menos espaço vazio onde (acham que) podem jogar toda a casta de porcaria em busca do meu alinhamento. A minha mente pensa, bolas! Escusam-se portanto de me enfiarem slogans elegantes goela abaixo, agradeço me pouparem dos e-mails ora verdes ora amarelos que me vêm enchendo a caixa de correio (já agora, apago-os sem os ler...), não tentem sequer me manipular com os vossos números e as vossas estatísticas, digo-vos!

Compreendo que estão a cumprir o vosso papel. Afinal, é a política, e há que catar votos para as próximas eleições... Para que fique claro que eu não sou contra a política nem os políticos: são elementos cruciais para a nossa vivência enquanto seres sociais. E, quando praticada com seriedade e elevação de espírito, a política é sem dúvida uma actividade nobre e útil. E o meu voto é - mais do que obrigação - direito sagrado: faça Sol ou faça chuva, lá estarei no dias das eleições para escolher quem irá governar este país em meu nome. A quem vou delegar o poder de tomar decisões que vão afectar a minha vida enquanto cidadão. Ah!, disso não abro mão!!!!

Por isso, para vos facilitar a vida na (dura) tarefa que têm pela frente para conquistar o meu voto, permitam-me deixar aqui algumas informações básicas, à laia de "termos de referência" para as eleições que se aproximam:

1. Eu não voto em partidos: voto em VALORES e ATITUDES. Isso é condição sine qua non para merecer a minha confiança e o meu voto. Valores correctos. Atitudes certas. Não me venham, pois, com rostos duplos: o rosto do político empedernido e discursos inflamados na Assembleia e o rosto que bate na mulher entre quatro paredes ou que "surrupia" electricidade no posto da esquina. O rosto que aprova leis de segurança na estrada e o rosto que passa por mim na avenida sem cinto de segurança e a falar no telemóvel. O rosto exalando seriedade sobre a gravata hermés no atelier-de-validação-de-qualquer-coisa e o rosto que na quietude da noite violenta a ingenuidade de menininhas de 15 e 16 anos em troca de patacos. Não me venham, portanto, com essas tretas, meus senhores e minhas senhoras! Para mim há apenas UM rosto no político que há-de conquistar o meu voto. A isso chamo ÉTICA e COERÊNCIA!

2. Eu não voto em bandeiras: voto em PESSOAS. Em competências técnicas reconhecidas, capazes de identificar e hierarquizar os problemas de Cabo Verde, construir soluções sustentáveis a longo prazo, mobilizar os recursos necessários e implementar acções concretas para melhorar a vida dos caboverdeanos.

3. Eu não voto em passados: voto no FUTURO. Que saibamos reconhecer o trabalho feito, sem dúvida. Mas por si só não conquistarão o meu voto, vou logo avisando. Quero, antes, saber o que pretendem fazer com o futuro deste país, com o MEU futuro. Por isso, escusam-se de perder o vosso tempo comigo alardeando o que cada um fez ou deixou de fazer... Falem-me, sim senhor, das vossas ideias para o meu futuro. As vossas propostas. As vossas soluções. O que VÃO FAZER nos próximos 5 anos.

4. Eu não voto em problemas: voto em propostas de SOLUÇÕES. Concretas, objectivas, estruturadas, com recursos devidamente alocados. Assim, não me façam perder tempo com retóricas vazias e dedos apontados. Quero antes soluções. O que propõe de concreto para o crescimento económico e distribuição de renda. A saúde, segurança e educação (a todos os níveis). As infraestruturas. O que pretendem fazer com a nossa cultura. A nossa memória colectiva. A juventude. O desporto. A agricultura e a pesca. Quais as soluções para que não me morram mais Eduardos e Bóias e Manecas nas ribeiras da minha ilha... Soluções, portanto. O resto passar-me-á ao lado, devidamente ignorado, aviso.

Já estou a ficar cansado destes discursos, dizia...

sábado, 23 de outubro de 2010

Recantos da minha ilha (3)

Teu rosto também é um recanto da minha ilha, meu velho Jota. Oásis da tal tranquilidade que só as vicissitudes de uma vida intensa podem conceder, e, muitas vezes - confesso! - porto de abrigo às minhas angústias de quase-poeta a vaguearem pelas ruas da cidade. Haverá sempre um verso escondido nas rugas do teu rosto. Haverá sempre uma paz para se colher na quietude de uma tarde a pairar sobre o povoado, enquanto no terraço me contas aventuras d´Angola ou a dor de ver homens-esqueletos a chegarem dos campos do Norte na fome de 47. Sem poder fazer nada, dizias-me.

É, sim senhor, um recanto da minha ilha, as rugas do teu rosto, Junzim d´Polina - meu pai...

("Rostos da minha ilha" - foto de PD)

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domingo, 17 de outubro de 2010

Remexendo velharias - I

Hoje, arrumo velharias na estante. Pedaços de antigos poemas encardidos de pó e de esquecimento. Pequenos nadas. Hora de sacudir a poeira, portanto. Espantar o tédio desta manhã de domingo que queria ensolarada e de banho de mar na Quebra Canela. Em vez disso - poeminhas antigos. Do tempo em que ainda te escrevia versos na última folha do meu caderno de macroeconomia. E era Julho, lembras-te? Naquele tempo os poemas não tinham nomes. Nem as palavras rumos pré-determinados...


POESIA SEM NOME

Niterói, numa aula qualquer em 22 de Julho de 1999...


Agora não adianta
esta algazarra de sonhos à minha volta...

É inútil este fervilhar de ilusões
que em menino
embriagavam-me

(e ao Gilson. E ao Jôn Bunita. E ao César. E à Isa de Nhá Mari d’Jóna. E à Gracinda)

- nas canções de roda.

“Papagaio loiro,
de bico doirado,
toma esta carta
prá levar ao namorado”

Já não tenho. Já não sonho.
Sinto. Sou.
Carne & osso. E nervos.

“Ó maleão maleão ai que vida é tua...”

Homem-ser na penumbra das horas,
um poema vagabundo à espreita
de novas rotas de fuga na linha do horizonte

(tragaram-me nas ruas do mundo
a alegre inocência dos meus 12 anos...)


("Miúdo contemplando o horizonte" - foto de PD)

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Recantos da minha ilha (2)

Aqui, neste recanto, é indescritível o silêncio que nos envolve. A sensação de sermos apenas uma partícula minúscula em algo muito, mas muito grande, que ultrapassa a nossa compreensão. Uma profunda paz que nos entra alma dentro e nos devolve à contemplação das coisas simples ao nosso redor. Vale a pena subir o Tope de Coroa em Santo Antão, digo-vos...

("Subida de Tope de Coroa" - foto de PD)

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Início de semana devia ser assim:

Obá!!!! Hoje é Segunda-feira!!!!
(Piadinha para Mnininha de Soncent eheheh...). Boa semana a tod@s!!!


("Ana" - Foto de PD)

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sábado, 9 de outubro de 2010

Crónica de uma visita ao campo de concentração de Tarrafal

Se calhar nem deveria chamar "crónica" a este amontoado de palavras. Ou que ao menos lhe acrescentasse "desaforada", como o meu vizinho margoso. Por esta gana que tenho neste momento de desbragar umas quantas porras, confesso...

Pede-me a minha prima e o marido dela angolano que lhes mostre o campo de concentração de Tarrafal. Conhecem gente que ali esteve e não saem de Santiago sem lhe ver as grades, o campo. Ala para Tarrafal via Pedra-Badejo, numa Quinta-feira solarenga de verde a bombordo pelas encostas e azul do mar a estibordo, para lhe beber um pouco a história. Mas em vez disso, esta crónica que deveria ser desaforada...

Logo à entrada um silêncio - que quereria normal num museu - e um vazio que, esta sim, faz-me um friozinho na barriga. Não tem ninguém?!, penso cá com os meus inseparáveis botões. Mas logo aparece uma senhora da sala à direita com um ar de enfado onde se pode ler "chiça!, lá me vêm uns paspalhos estragar-me a sesta...". Tem dois miúdos ranhosos agarrados às pernas. Silêncio. "Bom dia, senhora". Silêncio. Quanto é a entrada? "Cém merrés". Silêncio. Entrego o dinheiro e faço questão de receber os bilhetes. Para recordação, digo à minha prima. Por desaforo, digo aos tais botões meus.

No corredor principal ainda, revejo "Tarrafal, o pântano da morte", de Cândido Oliveira, que lera aos quinze anos com lágrimas nos olhos. O vento sopra suavemente por entre as casernas, o poço e as grades da história. Levo comigo a minha máquina, naturalmente. Por isso escuto apenas o vento desta vez: abstenho-me da contemplação, até para me proteger do desencanto. Em vez disso, enquadramento, quantidade de luz, posição do Sol, velocidade de disparo. Em vez disso grades retorcidas, nesgas de céu para lá do portão entreaberto, a pequena capela ao fundo na imensidão do corredor embasaltado. Quereria rostos, como é evidente. Corpos decrépitos a caminharem trôpegos pelos espaços agora vazios do campo. Olhares que adivinho mortiços na angústia de quem já não espera. Olhares do Algarve ao Alentejo para aqui transpostos pela bestialidade dos homens. Olhares de Luanda, olhares de Bissau, olhares de São Tomé, olhares de Lourenço Marques. Olhares dessas ilhas de que nos fala Pedro Martins e os outros.

Quereria também história, com certeza. Alguém para me contar - e à minha prima e o marido - as coisas que estas paredes assistiram, impunes, sem ao menos poderem dizer ao mundo. Alguém para nos contar estórias do campo, pois. Em multilingue para que ressoasse aos quatro cantos do universo. (Deito um olhar angustiado à senhora agora esparramada numa velha cadeira numa sombra à entrada. Com os miúdos à perna ainda...).

Desviámos à direita e depois de atravessar um portão entreaberto "descobrimos" duas alas com fotos de antigos prisioneiros angolanos e guineenses. O silêncio ali clama à contemplação. Pede-nos humildade e respeito. Reflexão. Por enquanto, desbrago-me a fazer fotografias tão só. Luz e contra-luz. Nesgas de Sol que entram pelas grades e iluminam o outro lado da parede. As fotos são enormes, imponentes. Prometo a mim mesmo regressar com calma - sem a máquina! - para lhes consumir os rostos. Destrinçar os olhares. Desbravar as rugas como quem entra em território desconhecido. Embrenhar-me pelas suas angústias, se calhar até escrever um poema qualquer em sua memória. Hei-de voltar, sim senhor.

Ao redor dos edifícios e nos corredores, a vivacidade das ervas brada-me abandono. Triste, muito triste. E eu que quereria museu... Ah!, mas agora compreendo a razão das cabras que vi outro dia na Fortaleza de Cidade Velha: não são cabras, pois. São funcionárias de limpeza. Devem ter até contrato assinado, cartão do INPS, direito a férias e subsídio de Natal. Pena que não falem o meu crioulo para me contarem as tais estórias. E muito menos inglês ou francês, naturalmente. Transfiram, portanto, parte das cabr...digo, das funcionárias de limpeza, ao campo de concentração de Tarrafal. Imediatamente! Se houver resistências e ameaças de greve, que venham então as vacas das ruas de Palmarejo! Mas agora com este verde todo que cobre a ilha eram capazes até de ficarem snobs e recusar o convite, essas atrevidas. E eu que quereria museu...

À saída, cerca-nos um grupo de cinco ou seis miúdos. Entre eles, os dois que inda agora colavam-se às pernas da senhora dos bilhetes. Nhôs dan um kusa. Digo-lhes que não, e em jeito de filósofo maluco digo-lhes que mininu ka ta pidi dinhêro, nhôs devia sta era na skola! Olham-me assim mesmo - como um filósofo maluco - apenas por uma fracção de segundo antes de zarparem à minha prima e marido. Digo a estes que não lhes dêm dinheiro e os miúdos agora crucificam-me com o olhar. Sou eu, agora, o carrasco, a crueldade em pessoa, o abusador de crianças. Na porta, a senhora continua esparramada na cadeira, agora observando a cena com o queixo pousado numa das mãos. Silêncio. Coisa tão banal, afinal... Depois falamos de thugs, abandono escolar, criminalidade juvenil, São Martinho a abarrotar pelas costuras, minha esposa angustiada pelos dramas que lhe vão desfilando pela sala. Quase que mando à bardamerda a senhora no portão com as mãos no queixo, mas lembro-me a tempo dos miúdos ao redor e dos tais valores meus. Seria uma contradição, pois. Eu que iria assim exigir valores aos miúdos. E um museu ali ao lado, dizia...

Assim vamos caminhando, nesta Quinta-feira solarenga de verdeazul. (Des)construindo história. (Des)construindo respeito e memórias. (Des)construindo valores. (Des)construindo o pouco que nos resta já de registos do nosso percurso colectivo. E eu que - porra! (não resisti) - queria apenas um museu ali no campo de concentração de Tarrafal...



(Campo de concentração de Tarrafal - Fotos de PD)

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Teremos todos um pouquinho de loucura?

Tenho que vos pedir desculpas por volta e meia colocar aqui um chamado para algum texto do Olavo. É que esse gajo tem a mania de nos desmantelar conceitos, desarranjar nossas zonas de conforto, transformar em pó velhas certezas com que tranquilamente adornamos nossos pré-epitáfios de bons cidadãos pagadores de impostos e deixar-nos assim com este vazio no pé-de-barriga... Grande porra, man!

... mas para lá da angústia que nos fica, um belíssimo texto sobre a loucura. Ou como nos relacionamos com ela. De se tirar o chapéu, meu caro. Seremos todos um pouco loucos então?, óh Olavo?! Dá que pensar, caramba!, dá que pensar...


("Do outro lado do espelho" - foto de PD)

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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

À procura de azul

Ando à cata de azuis pelos céus da minha cidade, sim senhor. Agora que me brigam a alma o verde e o amarelo dos discursos e, de tempos em tempos, o rosa e o negro das palavras, quero apenas saciar-me de azul. Com fiapos de branco para me lembrar a tranquilidade do teu sorriso. A paz que emana desta silêncio cúmplice com que me envolves ternamente quando de ti me acerco.

Neste Setembro ando esfomeado de outras cores, confesso. À procura deste azul nas esquinas desta minha cidade. Do reflexo de azul no vidro da janela defronte onde adivinho gargalhadas. Do abraço fraterno do azul do mar com a quietude do céu que pressinto na ressaca de chuvas e temporais. Até do cheiro de terra molhada que desejaria azul nas encostas de Achada Santo António, Bela Vista, Plateau... O azul, nesta hora, é uma promessa que se espalha sobre o betão da minha cidade como sonhos em construção, sabias?.

À cata de azuis pelas esquinas da minha cidade, dizia-te inda há pouco. Hoje, não o preto e o branco. Prefiro antes as cores que desenho nos mil rostos das gentes da minha cidade. Dá-me a tua mão - vens comigo viver o azul desta manhã de domingo?


("Azuis da minha cidade" - fotos de PD)

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domingo, 19 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Duas notas para o Mindelact

Nota 1:




Nota 2:

... afinal, somos todos actores de um palco muito maior: desfilamos máscaras tão só pelas ruas do mundo. Por vezes a máscara nos bloqueia a luz em potência e quedámo-nos assim mudos, a boca escancarada à espera da palavra suspensa. Outras vezes, caramba!, nem sequer decidimos se rostos de serrapilheira ou capas de gesso para nos esconder o pranto ou o riso.

Parabéns, pessoal do Mindelact!


("Máscaras" - fotos de PD sobre máscara de Olavo da Luz)

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sábado, 11 de setembro de 2010

Resposta do ZCunha

Em resposta a esta provocação, responde-me assim o ZCunha:

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DIÁRIO PÓSTUMO

"As dores ligeiras exprimem-se; as grandes dores são mudas."
Séneca

Caro Paulino

O teu desafio teve em mim um duplo efeito. Prazer e dúvida. Dúvida porque costumo re-AGIR nestes casos de forma espontânea. O prazer é óbvio. Bastava teres colocado a foto no Blogue que eu reagiria inevitavelmente. Tenho estado com um trabalho complicado entre mãos que só ontem terminei, causa desta atrasa reacção. Não penses que tenho estado ausente ou distraído. Não tenho tido tempo de intervir como gosto. Como muito bem sabes, eu não sei resistir a um rosto. E não há ‘maus’ rostos. Este é simplesmente magnífico. Esta fotografia fala por si. Bem sei que seria fácil agarrar-me ao chavão da praxe do valor supletivo das imagens sobre as palavras, e deixar-me ficar nas encolhas. Mas para mim, quanto maior o desafio maior o estímulo. E este rosto é incontornável. O que torna o teu pedido indeclinável.

Para tua informação vou retomar um conjunto de dez poemas escritos para os teus “dez-equilibrios” de 26/JUL. Um para cada “anjo voador”. Os poemas estão burilados, mas tive de interromper a sua conclusão pelo que te disse atrás. Faço tensões de os enviar brevemente, e tu com a responsabilidade de escolher para cada fotografia o poema adequado. É esse o desafio.

Quanto à fotografia da Nha Ilda, o que eu gostaria mesmo era de escrever um livro. Novela ou romance. A vida dessa mulher. Perdão, a história desse rosto. A forma como esse rosto foi tomando a forma que hoje tem. Para isso precisaria de muito mais material, nomeadamente ir a S. Antão e conhecer os lugares que ela pisou e que povoam a sua memória, ouvir as pessoas com quem ela conviveu, saber das coisas que ela fez, beber-lhe a voz, colher os gestos, escutar-lhe os silêncios. O resto ficaria por conta dos pozinhos de perlimpimpim da ficção. Ou então, alguém que o faça. Tu, por exemplo, que a conheces. Adiante. Só vi o teu Post no passado dia 6, já tarde. Desde então tem acontecido um inferno em lume brando. Não sei se sou eu que não a deixo, ou se é ela que não me deixa, mas pouco importa. Tenho tentado dialogar com aquela senhora, com aquele rosto, com aqueles sinais, e o que tenho tido por resposta é aquele silêncio fértil que me leva a dar velas à imaginação e andar à bolina sem outro mapa ou bússola que os pontos cardeais daquelas rugas, dobras e vincos. Um rosto paquidérmico. Soberbo. Esmagador.

Se algo de sintético pode ser dito deste rosto, magnífico mapa-mundi existencial, palimpsesto onde o mundo com espanto se mira num olhar de Narciso cego. Creio que tudo o que há para dizer caberá nesta frase de Francisco Umbral: “Estamos todos cara a cara com a verdade.”. Poderia ficar por esta síntese. Encontro nela a justa medida, a medida possível da impossível medida que a contenha. Mas se a tarefa imensa excede a medida de quaisquer palavras, e quando tudo recomendaria silêncio, eis que me vejo na incontinência de falas que me assolam, reclamando vozes que espelhem o que vai no rosto abismado da minha alma, face a face com esse rosto de silêncio e deslumbramento. Obrigado pelo retrato. Não é a primeira vez que as tuas fotos reclamam de mim a cumplicidade de um comentário. Não será a última. Desta vez se tivesse juízo teria ficado mudo e quedo. Repito, aquele rosto pede não apenas um poema, mas reclama um romance inteiro. É um rosto com história(s) para contar. E conta-as. Basta escutá-lo. O que tem sucedido é uma produção contínua de poemas curtos e reflexões breves, num autêntico acto de paixão, pouco compatível com as urgências de um Blogue. Na verdade dei comigo a escrever um Diário, o diário da minha relação com aquele rosto, do meu diálogo com Nha Ilda. Mas há ainda tanta surdez a interferir com o que posso ouvir desse rosto. E este é ainda um rosto em escuta. E gosto de lhes inventar estórias, apor legendas, colar comentários, enfim, rabiscar todo um inventário de afectos e paixões. Gosto de me perder neles, de me apaixonar, de inventar a escrita que os lerá, porque é a mim próprio que leio na escrita que para eles invento. Um diário, apesar do nome, é sempre póstumo. Este não foge à regra. É esse diário que tenciono partilhar contigo quando sentir que está concluído, que o filão se esgotou. Dá-me pois tempo para tentar “inventar” o tal alfabeto de que falas. Mas a tarefa é imensa, já que este é um rosto inesgotável.

Li com emoção o teu Post. Reavivou em mim esta citação de Francisco Umbral que assenta como uma luva ao teu texto: “…a minha infância, agora, não é uma evocação nem um poema, mas uma coisa quotidiana que me está a acontecer.” Como te compreendo se a frase de Umbral corresponde, como penso, ao teu caso.

Para já deixo-te com estes 3 momentos, colhidos nos jardins de 3 grandes poetas, enquanto arrumo o tal Diário Póstumo. O primeiro fala da Nha Ilda de agora. O segundo, quem sabe, talvez seja a voz de Nha Ilda confessando-se a Nhô Neto. O terceiro e último poema (fragmento), retoma e fecha a primeira citação de Umbral. De novo Eurydice e Orpheu, actualizado o mito.


A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Fernando Echevarría



Lembra-te
Que todos os momentos
Que nos coroaram
Todas as estradas
Radiosas que abrimos
Irão achando sem fim
Seu ansioso lugar
Seu botão de florir
O horizonte
E que dessa procura
Extenuante e precisa
Não teremos sinal
Senão o saber
Que irá por onde fomos
Um para o outro
Vividos

Mário Cesariny



Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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ZCunha, sem mais palavras, man... Fica o convite - e o desafio - para umas férias conjuntas em Santo Antão.

Um abraço,

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Irás comigo?

Este, o lugar onde gostaria de te amar. Delicadamente. Impudicamente. Sós...

Permitira apenas que houvessem nuvens: assim pequenos fiapos a acenar do cume de Tope de Coroa como flores numa grinalda. Se, de noite, também estrelas, como é evidente. E Lua, se me fosse dada a ventura de esta estar em cio. De resto, apenas o passeio das mãos na tua pele nua. O silêncio entrecortado. O toque. Corpos em lenta me-ta-mor-fo-se...

Irás comigo à Chã de Feijoal no Norte da minha ilha, óh crioula?

("Silêncios" - foto de PD)

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Intintaçon

Tenho por mim que quando Deus fez Santo Antão, ou estava de muito bom humor ou Ele tava ta crê intentá cristõn na quel ilha... Vejam o porquê nas fotografias que se seguem, de Ribeira de Altomira (Concelho do Porto Novo) e do Lombo de Pico (em Ribeira da Torre).

("Pipita" - foto de PD)



("Pirilau" - foto de PD)

Deve ser por isso que antigamente por lá o pessoal tinha muitos filhos: vissarada tava começá logo na rótcha!!! rsssss.

Uma boa semana a tod@s. Cheia de vissarada...

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Recantos da minha ilha (1)


O povoado de Monte Trigo, no Concelho do Porto Novo. Fotografia tirada a partir do cume de Tope de Coroa, a 1979 metros de altitude, com uma lente de longo alcance. Ó Benvindo, êss ê pá bô...rs


("Monte Trigo" - foto de PD)

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domingo, 5 de setembro de 2010

Um recado para o ZCunha


Dás-me palavras, óh ZCunha?

Para este olhar, meu caro Zé. Este olhar, estas rugas, e estes cabelos brancos. De Nhá Ilda lá de Fajã Domingas Bentas, Ribeira da Torre, numa tarde qualquer de agosto. O marido Nhô Neto morto de uma queda de rotcha lá pelas bandas de Ribeirinha Curta, era eu ainda um puto de 7-8 anos (o grito de dor a passear-me ainda pela noite das minhas insónias...). Uma vida sem filhos. Quase-solitária. Noventa anos tem este olhar, ZCunha. Dás-me palavras, óh poeta?

Digo-te apenas uma coisa, ZCunha: estes rostos são páginas de uma história que se lêem com um outro alfabeto. Nem Alupecs nem José Maria Relvas. Ha-de haver outros olhos, outra disposição das coisas e dos significados, outras músicas...


("Um olhar sem palavras" - foto de PD)


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Crónicas adiadas

Desta vez chegam com atraso as crónicas da minha ilha. Era para vos ter falado da ilha neste Agosto de horas intensas e chuvas a jusante que se descobrem na telúrica espera que vejo nos olhos do meu pai.

Era para vos ter descrito esta minha teimosia de procurar horizontes e outras cores na cor da ilha, a cada vez que lhe piso o primeiro solo ali no cais de Porto Novo. Outros tons para além da mesmice do verde dos postais, outros contornos que não apenas os traços salientes das rochas e dos precipícios que emergem dos vales talhados na sua epiderme. Outros sons & outras músicas para lá do gorgolejar da água nas levadas e do crepitar da lenha em combustão entre as três pedras do fogão na pequena cozinha improvisada de Nhá Tunkninha, outras pedras (rock) com que se constroem dia após dia a têmpera do Homem da minha ilha.

Era para vos ter cronicado principalmente o lento escoar das horas ali à sombra do monte de Péd Rétim nas tardes preguiçosas de Fajã Domingas Bentas, os pequenos silêncios entre o farfalhar das folhas de bananeira que parecem nos dizer: vem!, óh filho pródigo!, a paz que nos envolve a alma, nos sossega angústias e nos encurta distâncias. Era para ter partilhado convosco as fotografias da matança de tchuck ali em Xoxô a sete de Agosto, bem sei. Com as gargalhadas do Orlando mais as pirraças do Djack e o o terno abraço da minha Tia Memente e minhas primas Bia e Antoninha que vieram de Holanda.

Sobretudo era para vos ter falado em Agosto das gentes da minha ilha. Melhor, do reencontro com as gentes da minha ilha, com os olhares e abraços que me acarinham a alma e esta minha repetente sensação de regresso do filho pródigo. O canhoto de Dinha Arcângela, os olhos semi-abertos de Tá, as rugas de Tia Ilda, os braços retesados do ferreiro em Lombo de Santa a moldar enxadas, a deliciosa conversa com Palanca em Altomira (e o cheirinho de uma nova mentalidade a emergir nos campos da minha ilha…), o sorriso da Salu, o vôo do miúdo sobre o tanque de Marrador…

Era para vos ter falado também dos irmãos Jõn de Tuda e Modesto. Ou como vão se esvaindo pouco a pouco – nem eles mesmos se dão conta - os heróis meus da minha ilha. Sem que se façam manchetes e se interrompam telejornais com olhos esbugalhados de tragédia em última hora: é assim mais lenta e silenciosa esta, a morte dos meus heróis. Era para ter chorado convosco o suicídio do Manecas. Enforcou-se com uma década e tal de grogue goela abaixo e dois metros de corda ali na subida de Pedrene. Também não veio nos jornais, claro!, e sinto que deveria ter partilhado convosco este quê de angústia e impotência.

Mas, dizia, em Agosto deveria ter relatado também outras cores para além do verde da minha ilha…


(Fotos de Paulino Dias, Agosto/2010)


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domingo, 29 de agosto de 2010

Aviso aos navegantes (com um certo atraso eh eh eh...)

Este blog também esteve de férias, claro!

Perdoem-me este aviso tardio - por entre o verde da ilha, as caminhadas pelos montes e vales, a subida a Tope de Coroa, os banhos de tanque (até em noite de lua cheia!!!), os passeios de carro e as tardes de bisca no corredor da casa lá em Fajã, esfumou-se a promessa que fizera a mim mesmo de enviar aos leitores deste cantinho mantenhas regulares lá de Sintanton...

Mas já estamos de regresso. Com outros olhares, outras crónicas, fotografias... Sobretudo fotografias: este Agosto foi deveras uma outra experiência! Aguardem...


(O autor deste cantinho observando o povoado de Monte Trigo a partir do cume de Tope de Coroa - foto de Orlando Freitas, 17 de Agosto 2010)

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