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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Crónicas adiadas

Desta vez chegam com atraso as crónicas da minha ilha. Era para vos ter falado da ilha neste Agosto de horas intensas e chuvas a jusante que se descobrem na telúrica espera que vejo nos olhos do meu pai.

Era para vos ter descrito esta minha teimosia de procurar horizontes e outras cores na cor da ilha, a cada vez que lhe piso o primeiro solo ali no cais de Porto Novo. Outros tons para além da mesmice do verde dos postais, outros contornos que não apenas os traços salientes das rochas e dos precipícios que emergem dos vales talhados na sua epiderme. Outros sons & outras músicas para lá do gorgolejar da água nas levadas e do crepitar da lenha em combustão entre as três pedras do fogão na pequena cozinha improvisada de Nhá Tunkninha, outras pedras (rock) com que se constroem dia após dia a têmpera do Homem da minha ilha.

Era para vos ter cronicado principalmente o lento escoar das horas ali à sombra do monte de Péd Rétim nas tardes preguiçosas de Fajã Domingas Bentas, os pequenos silêncios entre o farfalhar das folhas de bananeira que parecem nos dizer: vem!, óh filho pródigo!, a paz que nos envolve a alma, nos sossega angústias e nos encurta distâncias. Era para ter partilhado convosco as fotografias da matança de tchuck ali em Xoxô a sete de Agosto, bem sei. Com as gargalhadas do Orlando mais as pirraças do Djack e o o terno abraço da minha Tia Memente e minhas primas Bia e Antoninha que vieram de Holanda.

Sobretudo era para vos ter falado em Agosto das gentes da minha ilha. Melhor, do reencontro com as gentes da minha ilha, com os olhares e abraços que me acarinham a alma e esta minha repetente sensação de regresso do filho pródigo. O canhoto de Dinha Arcângela, os olhos semi-abertos de Tá, as rugas de Tia Ilda, os braços retesados do ferreiro em Lombo de Santa a moldar enxadas, a deliciosa conversa com Palanca em Altomira (e o cheirinho de uma nova mentalidade a emergir nos campos da minha ilha…), o sorriso da Salu, o vôo do miúdo sobre o tanque de Marrador…

Era para vos ter falado também dos irmãos Jõn de Tuda e Modesto. Ou como vão se esvaindo pouco a pouco – nem eles mesmos se dão conta - os heróis meus da minha ilha. Sem que se façam manchetes e se interrompam telejornais com olhos esbugalhados de tragédia em última hora: é assim mais lenta e silenciosa esta, a morte dos meus heróis. Era para ter chorado convosco o suicídio do Manecas. Enforcou-se com uma década e tal de grogue goela abaixo e dois metros de corda ali na subida de Pedrene. Também não veio nos jornais, claro!, e sinto que deveria ter partilhado convosco este quê de angústia e impotência.

Mas, dizia, em Agosto deveria ter relatado também outras cores para além do verde da minha ilha…


(Fotos de Paulino Dias, Agosto/2010)


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domingo, 29 de agosto de 2010

Aviso aos navegantes (com um certo atraso eh eh eh...)

Este blog também esteve de férias, claro!

Perdoem-me este aviso tardio - por entre o verde da ilha, as caminhadas pelos montes e vales, a subida a Tope de Coroa, os banhos de tanque (até em noite de lua cheia!!!), os passeios de carro e as tardes de bisca no corredor da casa lá em Fajã, esfumou-se a promessa que fizera a mim mesmo de enviar aos leitores deste cantinho mantenhas regulares lá de Sintanton...

Mas já estamos de regresso. Com outros olhares, outras crónicas, fotografias... Sobretudo fotografias: este Agosto foi deveras uma outra experiência! Aguardem...


(O autor deste cantinho observando o povoado de Monte Trigo a partir do cume de Tope de Coroa - foto de Orlando Freitas, 17 de Agosto 2010)

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Assim, em jeito de intimidades...


Hoje, deu-me para partilhar segredos. Contigo, naturalmente. Afinal, mas quem disse que o amor deve ser um segredo??! É assim: faz hoje mais ou menos um ano, que na varanda de um hotel algures, escreveu desta forma, um moço dessas ilhas - para ti:

"Bb, achei muito linda esta crónica. Senti saudades de ficar ali vendo vc acordar todos os dias, os teus olhinhos abrindo-se lentamente que mais parecem um poema que se descobre com suavidade dia após dia... Eu te adoro. Agora, nesta distância de dias, neste rumor de solidão que me aperta cada vez que acordo e não te encontro a meu lado, nesta folha em branco onde deveria ter escrito o poema, sinto cada vez mais que eu te adoro. Assim, com doçura, com a suavidade de uma aragem que nos acaricia a pele do rosto numa tarde morna de Fajã ou na varanda de Nho Ménel de Altomira. Eu te adoro... Não assim esta paixão louca que vem e que vai num ai antes que se volte a encher a taça de vinho. Não assim esta coisa indomável de uma noite de sexo, suor, gritos, gemidos e o adeus na madrugada. Não assim um poema artificialmente construido, a nota de violão pré-definida, o sorriso treinado mil vezes ao espelho. A minha adoração por ti é algo subtil e verdadeiro como um poema inesperado, tem a magia e a tranquilidade de um sorriso teu quando me esperas depois do trabalho. É algo amigo, doce, companheiro, ombro, mãos que me percorrem o corpo e tranquilizam angústias, abraço que me alimenta os mil sonhos com que enfeito os dias. Hoje, daqui da varanda de um hotel em Dacar, distante de ti, perto de ti, só queria te abraçar de mansinho e te dizer bem devagar no teu ouvido: bo cre casà ma mi? Quero te ver a acordar, assim bela, todos os dias restantes da minha vida..."


(Foto de PD)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Entre cânticos celestiais e a porra de um mosquito...


QUEM FOI QUE AUTORIZOU UMA IGREJA QUALQUER A VIR CÁ ENTOAR-ME ESTA MÚSICA EM ALTOS BRADOS MESMO AQUI AO LADO, NA ESQUINA DO MEU PRÉDIO, NA PRAÇA PALMAREJO???! EM PLENA TERÇA-FEIRA ÀS 19H39MN, ENQUANTO PROCURO DESCANSAR DE UM DIA LONGO, CARAMBA???!

QUEM FOI QUE LHES DISSO QUE - TAMBÉM EU, AGNÓSTICO ASSUMIDO! - ESTOU INTERESSADO EM IR AO REINO DOS CÉUS ATRAVÉS DESTA BARULHEIRA TODA???? RESPEITEM TAMBÉM A MINHA NÃO-RELIGIÃO COMO RESPEITO A VOSSA, CHIÇA!!!

E depois vem um Polícia muito zeloso lascar-me uma multa de dez mil paus por ter estacionado o carro à frente do meu prédio... HAJA COERÊNCIA, PORRAAAA!!!!!!



(Foto "coimada" a partir daqui)

A voz dos outros



"(...) Em relação aos gestores públicos, pessoalmente tenho algumas reservas, parece-me que da experiência que vivi até agora não temos sabido formar ou mesmo seleccionar adequadamente as pessoas que exercem essas funções a nível das instituições públicas. De um modo geral são pessoas um pouco avessas ao correcto exercício da autoridade e à assumpção do risco. Há também o problema de autonomia: para não terem problemas com potenciais interessados quase que canalizam o processo decisório para níveis de hierarquias superiores, mormente a nível do Governo ou então de outras entidades públicas. Falta, portanto, aos gestores públicos essa característica importante, que é ser auto-confiante, ser determinado, que é exercer a autoridade quando tiver de fazer isso e assumir o risco e as responsabilidades de que esta investido. Também conheço e já tive oportunidade de trabalhar com bons gestores públicos aos quais não se aplica a caracterização que acabei de fazer. Mas infelizmente não são a maioria.(...)"

Extracto da entrevista concedida pelo ex-Ministro das Finanças, JOÃO SERRA, ao blog "Por dentro das organizações". Leia na íntegra a entrevista aqui. A não perder...!


(Foto - "Ponto de vista", de PD)

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Como o tempo voa...!

Inda ontem o choro (de alegria) e a explosão de afecto quando te soube a caminho. Foi ali numa curva da estrada de Ribeira da Torre quando recebi a boa nova, lembro-me bem... Inda ontem a angústia da longa espera, a inquietação de te saber rapaz ou menina, o orgulho exibicionista de me dizer quase-pai já, e também o tiquinho de medo que me assaltava de quando em vez, confesso-te. Pela responsabilidade, naturalmente.

Inda ontem o telefone na cabeceira a dizer-me às 06h da manhã que estavas pra nascer ali no Hospital de Ribeira Grande. Inda ontem o nervosismo - o medo, outra vez, caramba! -, o primeiro choro, o primeiro banho, o primeiro arroto, o primeiro pupú na minha camisa que exibi ali nas ruas de Povoação como um moço doido. Os primeiros passos, a primeira queda do baloiço (ali em Ponta do Sol, lembras-te?), o primeiro tropeço, a primeira angústia - e desespero! - por te saber distante numa cama de hospital com a tua primeira febre...

Inda ontem as primeiras letras, a primeira carta que me escreveste - e que trago comigo ainda na carteira como o melhor dos meus tesouros! -, os primeiros livros sobre a tua mesinha de cabeceira. Inda ontem...

E agora, minha princesinha, assim quase que de repente, descubro-te assim:

Como o tempo voa...!


("Patrícia" - foto de PD)

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Empresa mais admirada

Pessoal,

Não deixem de votar aqui. Faltam apenas 4 dias.

Um favor: divulguem esta votação, é uma forma de contribuirmos para aumentar a competição entre as empresas nos diversos sectores em Cabo Verde - ganha assim o consumidor!

Passem a palavra entre os vossos contactos e nos vossos blogs - contamos convosco.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Outros verbos

Há, evidentemente, outros verbos que me interpelam. Outras luzes que me captam o olhar, outras dimensões do sentir a forma e o espaço. Há algures uma outra inquietação, sim senhor: insignificante, talvez, intimista sobretudo, mas prenhe desta coisa magnífica e silenciosa que nos desconstrói o tempo que teimamos em ver desfilar no outro lado da janela. Que nos faz regressar à Génesis 1:26 - em câmera lenta, só para nos saborear o espanto, diria até! - à redescoberta do motivo original do sermos e de estarmos. Assobio então Chico Buarque às 10:50 de uma manhã qualquer...



("Formas & luz" - foto de PD)

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Uma provocação chamada...Olavo de Nha Daluz


Diz-nos assim o Olavo, numa crónica deliciosíssima publicada aqui no seu blog:

"É vital e urgente protagonizarmos, nos níveis individual e colectivo, uma reflexão profunda, verdadeira e ética que nos permita finalmente dividir o respeito humano e o mérito numa perspectiva radicalmente oposta. Retirar nossos joelhos doridos desse chão nojento em nos encontramos prostrados diante de falsas deidades e erradicar essa maldita ideologia que é utilizada como instrumento de alienação e de dominação. Essa é uma das trilhas da independência…aquela que ainda não começou." (ler o texto completo aqui).

Nem sempre concordo com o Olavo, e costumamos ter já acesos debates sobre os mais variados assuntos. Mas o Olavo é daquelas pessoas que inevitavelmente nos faz crescer bons centímetros de conhecimento a cada debate. Pela sua maestria analítica, sua visão holística e intrinsecamente "humana" do universo, pela beleza do verbo, pela tranquilidade das palavras, pela provocação, pelas outras perspectivas, pela poesia. Olavo é um poeta. Melhor: um artista completo na verdadeira acepção da palavra - sem que tenha a mínima pretensão de o ser. E aqui reside, se calhar, um dos seus traços mais salientes - a humildade.

Não concordo com tudo o que escreveste neste post, compadre. Mas um obrigado sincero por me levar a reflectir numa outra perspectiva... Fica desde já marcada a conversa este final de semana eh eh eh!


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A minha imagem...

... para os 35 anos da nossa independência é esta:



Qual é a tua?


("Entretempos" - foto de PD)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ainda sobre a "marca Cabo Verde"

Pela importância da matéria e pela necessidade de ser muito bem discutida, publico aqui um comentário (com pequenas adaptações) que escrevi no blog Café Margoso:

"Confesso que resisti bastante a tecer qualquer comentário sobre este assunto. Primeiro, por uma questão de ética profissional (estive bastante envolvido na elaboração do Plano Estratégico do Turismo) e segundo porque desde o início discordei da forma escolhida para se construir a "marca" Cabo Verde - já vou explicar porquê - e não queria ser, por isso, mal interpretado.

Mas o meu dever de cidadão está a falar mais alto. Para dizer que também eu não me identifiquei - enquanto caboverdeano - com este logotipo. E o alerta feito pelo Ivan Santos torna o assunto ainda mais delicado...

Não se trata de uma questão de estética - que nesta área confesso a minha ignorância quase total. Mas estamos a falar de marketing. De construir uma marca que deve(ria) espelhar e reflectir um conjunto de valores, atitudes e atributos facilmente perceptíveis para o observador, e que claramente diferencia o objecto que representa (Cabo Verde) dos demais. Que o identifica, que o torna único, que diga de imediato qual o seu conteúdo, qual a sua "promessa". Uma marca é uma promessa que se faz. A "marca" é, portanto, algo muito mais profundo do que apenas o seu significado estético.

Dito isto, o que me evoca este logotipo? Vamos imaginar que alguém desembarca de Marte e de imediato é-lhe apresentado este logo. O que irá pensar? É um atelier de pintura? Jardim infantil? Marca de tinta concorrente da SITA?? Ou uma extensão do Algarve turístico???

Sobre a semelhança com o logo do Algarve Turístico. Isso é gravíssimo quando falamos de algo tão importante como a marca de um Cabo Verde turístico: em vez de uma marca que nos diferencia em relação aos concorrentes, criamos uma que nos faz parecer... semelhantes! Daqui a pouco algum inglês ou alemão vai estar a pensar que Cabo Verde é uma extensão do Algarve... Uma ironia da história, agora que celebramos 35 anos de independência!

Não concordei com a forma como a criação da marca decorreu (com todo o respeito que tenho naturalmente pelas pessoas que se esforçaram e participaram, e deram o seu contributo). Primeiro, porque a criação de uma marca - seja de um país, de uma empresa ou de um grogue de Sintanton... - é tão importante que requer conhecimentos técnicos especializados (não apenas de design/arquitectura mas também de marketing, comunicação, psicologia, sociologia, antropologia). Requer um conjunto de ferramentas analíticas (para se perceber as expectativas do público que se quer atingir e a forma como este se relaciona com o tempo e o espaço, bem como as estratégias dos concorrentes), requer pensamento estratégico e capacidade criativa, requer visão holística e universal. Penso, mais uma vez com todo o respeito, que é difícil encontrar todas essas qualidades em apenas um concorrente. É por isso que hoje existem empresas especializadas em design e marketing e em criação de identidades corporativas! Pela importância do assunto, seria mais recomendável que se lançasse então um concurso para escolha de uma empresa especializada no assunto!

Em segundo lugar, o concurso era limitado, se não estou em erro, apenas a cidadãos nacionais. E aqui um "vício de origem": o criador da marca é diferente do potencial/futuro consumidor da mesma - e não creio que tenha havido um estudo prévio para identificar as expectativas deste consumidor (ou, se houve, será que foi distribuído aos concorrentes?). Dito de outra forma - o criador muitas vezes transpõe para a criação a sua própria expectativa, as suas próprias necessidades, as suas próprias percepções da realidade existente/desejada. Mas na criação de uma marca, o objectivo é o contrário - visa transpôr para a marca uma percepção de atributos que se promete para satisfazer as expectativas do outro, do consumidor (que neste caso é o turista).

É urgente criarmos por aqui uma cultura de descer mais ao fundo na formulação de soluções para este país. Menos superficialidade, por favor. Os erros nesta área costumam ser muito custosos e difíceis de reparar!!!"

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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Gestos...

E porque estamos em Junho, mês das crianças, deixo-vos aqui este gesto, com fome de palavras. Quem mas dará, as palavras?

(E era Junho nas veredas de Fajã e arredores quando cantávamos - depois do exame - Viva quel vin! Viva! Viva quel bôl! Viva! Ô li, ô lá, raposa ca ta entrá! Lembras-te, Gilson? Mamãe à nossa espera na soleira da porta com um balaio de mangas maduras que o meu irmão Rufino fora buscar em Pedregal... E agora que minha filha me diz que terminaram as aulas, dá-me ganas de bradar - ondê os exames da minha infância, ahn?)


("Um gesto de amor nas ruas de Roterdam" - foto de PD)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Novo blog no pedaço...

Pessoal,

Mais um novo cantinho na blogosfera crioula. Dessa vez, para se falar de gestão (que não deixa de ser uma outra forma de poesia... eh eh eh). Divulguem, precisamos gerar uma dinâmica de debates, comentários e sugestões, para que o blog seja útil.

Em breve teremos outras rúbricas. Estamos a "negociar" com outros co-autores, o Contabilista/bloguista Afonso e o licenciado em Administração/bloguista, Tide, que incluirão análises económicas e financeiras de empresas, conversas com gestores e líderes, o que rola lá fora no mundo da gestão, etc.

www.pordentrodasorganizacoes.blogspot.com

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Folha caída

Foi-se hoje um grande homem. Não daqueles que despoletam manchetes nos jornais, reportagem na TV, luto nacional, repórteres em polvorosa. Quanto mais, um pequeno anúncio 4x7 num jornal qualquer e um aviso no Agenda de Informações. Mas um grande homem, todavia.

Foi-se-me hoje um daqueles homens destas ilhas que, qual paciente artesão, ajudou a construir, pedra a pedra, pilar a pilar - ainda nos meus tempos de estudante em São Vicente - este edifício que me tornei. Assim que me passar a comoção, Tio Frank, poderei lhe dizer então um MUITO OBRIGADO por tudo.

Que a terra lhe seja leve, Francisco André da Cruz!


("Pilar" foto de PD)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Foi-me dito que...


Sobre este post, escreve-me assim o leitor Venâncio:

"Interessante, as sombras são todas iguais. Não são brancas, amarelas ou vermelhas. Somos uma única cor. O que diferencia uma sombra da outra é o tamanho e os objectos que cada um carrega, grandeza do espírito. A humanidade precisa de alguma maneira encontrar a sua sombra."

Dá que pensar, não dá?

Muito obrigado, Venâncio, por esta inquietação...

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Como se conta...


("Tempo para amar" - fotografia de PD, inspirado nesta história...)

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Indignação!

Antes que me acusem de estar a ser muito "má-criado" nesta reentrée, permitam-me mandar mais uma grandesíssima PORRA!!!!!, para esta notícia...

E mais não digo!


("Indignação" - foto de PD)

Luz! Luz! Luz!!

Escrevo hoje à luz de velas. E por conta das mentes que nos inventaram a bateria de computador, felizmente. Estou em crer até que estes se inspiraram numa tal empresa de electricidade de um tal país chamado Cabo Verde. Honra e glória a esses moços, portanto!

À luz de velas, dizia. E de madrugada. Já não suporto o calor infernal. Do tecto, a ventoínha - parada - me encara até com um quê de pena. Escancaro a janela para que me entre um tintinho assim de vento. Em vez disso, fumo do barulhento gerador do prédio defronte. Chiça! Entre o calor, a não-luz, o fumo e o barulho, decido escrever para exorcizar o nome de Pai-Filho-Espírito Santo-Amén. Que
, neste preciso momento, dá-me ganas de praticar o 4º pecado até a exaustão...

São com certeza românticos os moços da Electra: têm um prazer quase carnal para com a vela. Jantar à luz de velas. Escrever (poemas e outras merdas) à luz de velas. Ler à luz de velas. Cagar à luz de velas. Dormir à luz de velas. Acordar à luz de velas. F... à luz de velas. Porra!, por este andar já nem vou pedir ao meu velho que me mande como encomenda um gruguim de Sintanton para secar o suor neste Verão. Antes velas. Muitas velas. Caixas de velas. De purgueira, que está na moda. É isso. Arranquem as canas e plantem purgueira. Encham-me as encostas da ilha toda de Jatropha Curcas. Diz-me o instinto que se ganha dinheiro com certeza nos próximos meses vendendo velas...

Ah!, tivesse eu o faro de um Napumoceno da Silva Araújo que também importaria uns 10 contentores de leques e abanadores para fazer dinheiro neste Verão. Da China, para ser mais barato e democratizar o ventinho fresco. Nada de elitismo neste negócio. Afinal, "tud cristõn, tud cimbron, tem direito a se gota d´ar...". Pressinto coisas num futuro próximo. Cidade sem luz, calor infernal, matraca de geradores, suor escorrendo, fome de vento, oli lééééque!, ventoíiiiinha!, bonito e "balaaaaato", Pressinto coisas...

Entretanto abro o jornal por ler, da semana passada. Nos classificados um anúncio: "Caro consumidor, mantenha as suas contas de luz em dia para evitar cortes de luz e dissabores (...)". Assim, belo como um poema. Enternecedor, diria até. Emocionante.

E eu, porra!, que hoje não tenho luz, que anúncio devo colocar nos jornais para a Electra??! Aceito sugestões...


("Luz & Forma" - foto de PD)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sombras na minha Cidade

As palavras. Ainda as palavras. Melhor: a ausência delas. Nem é letargia, sequer posso lamentar falta de tempo por esses dias, menos ainda motivos e rostos por quem e para quem se escreve. Nada disso. A ausência apenas. A folha vazia - outrora angústia no ecrã em branco, hoje uma calma contemplação do deixar andar. Deixar-se estar na cadência agora lenta das horas. Sem pressas. Tranquilamente. Sossegadamente.

Não as procuro, as palavras. Em vez disso, contemplo-as. Em silêncio. Enquanto na rua sob a minha janela passeiam sombras. Reais, essas sombras que por mim passam, caramba! Dá até para lhes sentir o gesto, a textura, o mundo à cabeça e as contas por pagar. E - vejam só! - arrastam pelos pés os corpos erectos como quem carrega um fardo! Triste sina a dessas sombras que têm que carregar o Homem pelas ruas da cidade... Enquanto este basofia pelas esquinas sua herança de Adão e Eva!

E agora, porra!, esta angústia de não saber ainda onde me deixou a minha sombra...


("Sombras pela rua" - foto de PD, algures sob um prédio em Palmarejo)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma foto sem palavras

Porque ainda me saem enferrujadas as palavras, meu caro Venâncio, deixo-te aqui um post em silêncio...

("Silêncio" - foto de PD)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Relax na tchon d´Holanda....

Queria tanto um poema para este olhar mortiço, esta quasi-candura no passo lento que em mim tropeça numa esquina de Roterdam... Queria tanto - meu Deus! - um simples verso para enquadrar o momento... Quem mo dará - caramba! - este poema por que tanto espero?
("Relax na tchon d´Holanda" - Foto de PD)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O chamado de Dona Canô

Chamou-me ontem a Dona Canô, ali na areia de Gamboa. Chamou-me, sim senhor, a Dona Canô - e como um menino ergui os braços lá bem no alto e gritei para que todos ouvissem: oli´m!

Chamou-me a Dona Canô pela voz da Daniela Mercury - Ah!, Daniela dos meus sonhos ao desembarcar ainda adolescente ali no Rio anos atrás, com amores de Romeu e Julieta ainda na minha mala de poeta!

Dona Canô chamou,

Eu vou

Dona Canô chamou
Eu já me vou, Dona Canô!



(Aqui deste lado, Daniela, a Dona Canô que me chama traz uma certa vivência crioula no olhar, e responde pelos nomes de Silva de Junzim de Pólina, Nhá Mari Ricarda, Dinha Arcângela, Didita, Nhá Dadá lá de Água Gato, mulheres destas ilhas em construção...).

Dona Silva chamou,
Eu vou
Dona Silva chamou

Eu já me vou, ó Dona Silva!



(Foto magistral do Eneias Rodrigues...)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Três notas avulsas em jeito de batidas à porta

NOTA 1. São para ti estas palavras, naturalmente. Desarrumadas talvez, despretensiosas sempre, intimistas se calhar, vigorosas quando necessário, mas leves como um beijo ao entardecer. São para ti - e por ti - estas palavras que aqui deixo. Falar-te-ei por vezes de coisas simples: os rumores de Quebra Canela às 6h da manhã para espantar o tempo, algum sorriso entre a multidão que me ficou colado à retina, um verso assim de repente, gentes da ilha, coisas minhas. Vez ou outra partilharei contigo um porra, merda, puta-que-pariu - sem pejo! - assim em jeito de desabafo. Divagarei outras vezes: como um moço doido, dirás certamente. Mas serão sempre para ti estas palavras. Sempre!

NOTA 2. Hoje, para te celebrar, irei fartar-me de poesia até não poder mais. Porque é Terça-feira (podia ser Segunda ou Sexta, se calhar até Domingo - mas é Terça-feira, caramba! Que mal há nisso?!). Porque descobri o poeta - não sob as luzes das manchetes, dos prémios Camões ou das lambeduras entristecidas mas na estante do Olavo ali em Terra Branca, no meio de palavras jogadas ao vento numa noite de Sábado. Haverá poesia hoje à tarde, portanto. Com peixe seco assado e um gruguim de sintanton, naturalmente...

NOTA 3. E assim, parafraseando o grande Nelson Gonçalves, dá-me ganas de bradar nesta hora:

"Blogmania,
aqui me tens de regresso
e suplicando te peço
a minha nova inscrição.

(...)
Ele voltou
o bloguémio voltou novamente (...)"

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Estarei de regresso em breve...


A 01 de Junho próximo estarei de regresso a este meu espaço... Porque senti saudades - confesso! -, porque faz-me falta esta partilha, este viajar intimista aos recôndidos da alma, da ilha, dos meus silêncios. Porque escrever - disse-o aqui certa vez - é quase que apalpar o silêncio que se forma ao nosso redor. É acariciar a memória com ternura e um quê de saudosismo, é envolver o tempo numa auréola de fingimento (já dizia o outro que o poeta é um fingidor...), é temperar a monotonia do ponteiro do relógio com o olhar da moça que nos atravessou pela frente ali ao dobrar a esquina, é tactear o sossego do cair da tarde em acordes dó-ré-mi de um violão que apenas pressentimos.

(Neste preciso momento enquanto escrevo, leva-me no tempo a voz dos Livity ao terraço de Djô Mecânico ali em Cabouco de Cosco nos idos dos anos 90, onde contigo dancei "Rosinha" pela primeira vez - lembras-te? Nem percebeste meu peito tum tum tum que nem panela de pápa ta rompê ferva, na ansiedade adolescente dos meus primeiros amores...)

Estarei de regresso a 01 de Junho de 2010, prometo...


(Foto: "Há sempre uma saudade qualquer ao cair da tarde. Sempre" - Foto de PD)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ultimo post

Tinha que terminar com poesia, este meu cantinho intimista, claro...



TESTAMENTO

(Da antologia “Caminho di bai”)


Meu último poema

será um panfleto.


Dou-vos minha palavra!


Depois disso

serei apenas osso

……………..ou fosso

……………………..ao redor

os passos cronometrados

pelo bater louco

do meu coração em frangalhos.



Texto: Paulino Dias
Foto: Helder Paz Monteiro



**THE END **

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“Crónica de um adeus anunciado…”

Car@s amig@s,


Escrevo estas duas regrinhas para vos dizer que encerrarei as postagens no “Blog do Paulino” a partir da próxima Segunda-feira dia 11/08. Neste dia, escreverei aqui o meu último post, em jeito de despedida deste meu cantinho intimista. O blog continuará no entanto activado, pelo menos até descobrir uma forma de gravar todos os textos (salvo poucas excepções, quase todos foram escritos directamente no blog, sem que eu tivesse tido o cuidado de ao menos salvar um registo no meu computador… alguém aqui dá uma dica, por favor?).


Alguns irão certamente perguntar porquê. O que é que terá dado na telha daquele moço de Santo Antão, hein? Encerro o blog porque sem dramas assumo que para mim é chegado o fim de um ciclo, no que diz respeito ao exercício da escrita. A vida é feita de ciclos, de etapas que se substituem e às quais nós naturalmente devemos ajustar os nossos passos, com um sentido crítico que nos permite reinventarmo-nos continuamente para não perder a humildade e a poesia da descoberta de outros rumos. Encerro este ciclo com tranquilidade, à semelhança do que fizera antes no fim de outras etapas, como quando decidi deixar de participar no belíssimo programa “Música & Poesia” da RCV ainda no início dos anos 90 do século passado, ou quando terminei a minha coluna “Gentes das Ilhas” no ASemana Online.


Desde que escrevi aqui o primeiro post, ainda meio a medo, nos idos de Novembro de 2006 (caramba!, como o tempo voa…), e ao longo de mais de 130 posts, o “Blog do Paulino” tem sido para mim um espaço de escape e de partilha. Sobretudo partilha. Partilhei convosco na intimidade deste cantinho pequenas alegrias, coisas boas da vida, imagens que me marcaram, sons e cheiros de caminhadas pela ilha de Santiago, alguns momentos menos bons de saudade, tristeza e angústia – às vezes até, melancolia -, insonias, desabafos desaforados, chorei por vezes ao escrever o texto (está bem, confesso!, rs), dei também algumas gargalhadas, senti raiva, que outras vezes manifestei através de uma subtil ironia, tivemos também alguns debates muito ricos e interessantes, e outros devidamente abortados por absoluta falta de respeito ao outro e nobreza intelectual. Ah!, também amei - claro! – e mandei recados de ternura e de saudade. E entre a cidade e os recantos mais intimos da alma, fui de permeio fazendo publicidade da minha ilha Santo Antao e das gentes do meu cutelo Faja Domingas Bentas...


Muitas vezes, esta partilha se revestiu de alguma delicadeza, por navegar numa linha ténue entre o íntimo/privado e o público. Desde o início sempre tive a noção clara deste risco e assumi-o com tranquilidade, com a plena consciência do que representava em termos de exposição pública do que me ia no mais fundo da alma.


Mas o que foi para mim muito gratificante foram as relações que se foram construindo por causa ou através deste blog. Tive a felicidade de me “cruzar” virtualmente com pessoas extraordinárias e com quem aprendi muito (e vou continuar a aprender, claro!, porque continuarei a visitar os meus blogs de referência). E ainda tive o enorme prazer de conhecer pessoalmente vários destes “amigos virtuais”, como o Abraão, o Filinto, a Guida, o Tide, a Soraia, a Eury, o Val, o Benvindo, o João Branco, o Kaká Barbosa, o César, a Velu, o Djinho… O Olavo, o Djoy, a Vivianne, o Afonso e a Guida Mascarenhas já os conhecia, mas estabeleceram-se outras dimensões de relacionamento aqui na “blogosfera”.


Por último, porquê encerrar o blog numa Segunda-feira? Sei lá! Se calhar porque – ao contrário de M’nininha de Soncent (rsss) – sempre tive uma certa predilecção pela Segunda-feira depois do fastio dos Domingos à tarde. Se calhar porque no meu íntimo sempre esteve esta coisa masoquista de “matar o blog” numa Segunda-feira de Agosto. Se calhar porque o número 11 tem algum significado místico que ainda não descortinei, para além do “Léla” como o bradávamos nos jogos de loto lá em Fajã…


A todos, um muito obrigado sincero pelas visitas e pelos momentos de partilha. Um abração amigo,


Paulino

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pressa...


Às vezes acordo com uma profunda sensação de pressa. Como se, do nascer do dia ao bater das doze badaladas da meia-noite, tudo fosse uma espécie de dança cósmica sob a batuta de um ponteiro de relógio. E nem posso dizer – como o Vinicius – que “minha existência sem ti, é como olhar para um relógio apenas com o ponteiro dos minutos”.


Tenho pressa, confesso. Tenho pressa de amar – antes que morra em mim a poesia. Tenho pressa de me lambuzar na lua cheia – antes que sucumba o adolescente eternamente apaixonado pelas coisas belas da vida. Tenho pressa de apreciar o quadro do Olavo na parede da sala – antes que me desapareça a ternura pelo azul. Tenho até pressa – caramba! – de escrever meu último poema (o tal que será um panfleto, para que depois possa seguir em paz com os deuses todos cá da freguesia), de rabiscar meu último discurso, de assobiar minha última canção aqui na varanda com o velho violão a tiracolo.


Já me dizia em tempos o Aristides, que em mim tudo foi precoce, tudo é precoce: o primeiro choro, as primeiras letras, o primeiro canudo, a primeira aliança, o primeiro adeus, e até o primeiro silêncio entre quatro paredes sós. No meio de duas gargalhadas, ficou o arrepio pela espinha. Será também precoce – chiça! – a partida e o tal desejo de fugir?


Talvez por isso, este relógio a martelar-me incessantemente o ombro esquerdo. Compreendes agora, minha amiga, esta pressa de amar os teus olhos caboverdeanamente verdes?


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Com este calor dos diabos aqui na cidade grande, o que eu queria agora era...

… como diria o vizinho Café Margoso – e bô?

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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ah ah ah ah ah ah!!!!!!!!!!!!!

Em resposta a este post, o Sr. Casimiro de Pina respondeu assim: (clique aqui).

Comments, pessoal?? Nao eh uma delicia, hein?

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sábado, 2 de agosto de 2008

Hoje apetece-me poesia...


Hoje, com este Sol de Sábado a lavar-me o rosto pela fresta da cortina, apetece-me poesia. Lambuzar-me todo de poesia, barbear-me em poesia, escovar os dentes com poesia enquanto me espreita o moço do outro lado do espelho com uma inexplicável alegria na retina dos olhos. Hoje – não há pilha de corpos esqueléticos em pós-agonia nem Deus nenhum que me impeçam! – vou embebedar-me de poesia…


Abro ao acaso A cabeça calva de Deus só para saber pelo Corsino que


“Mulher! Quando o céu da tua boca

Arrasta o corpo da terra

.................Até a goela da água longínqua

A febre conta no arco-íris

..............................Da carne que sangra

..................A montanha roída dos dentes…


E da cicatriz da mão

.................................brotam raízes

Que vicejam a memória dos séculos…”


Convence-me o Valentinous logo depois que também eu – sem o saber, caramba! - tenho o infinito trancado em casa. Segreda-me devagar ao ouvido (quase num sopro),


“Sabemos o que Deus no céu achou.

Não sabemos é do que na terra anda à procura”


Poesia, Velhinho, poesia. Ele por cá, anda à procura é de poesia, moço! Depois que Adão fez cagada lá no Paraíso e o soldado romano trespassou Seu filho com a lança, só a poesia é capaz de lhe curar a dor, digo-te.


Ah!, podem vir agora as deusas todas de navalha em punho para me dilacerarem a carne. Podem vir as hordas de bruxas e feiticeiras com suas poções, suas maçãs envenenadas! Podem vir!


“Eu estarei de mãos postas

à espera do tesouro que me venha na onda do mar,

E minha principal certeza

é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos…”



("Ilha encalhada" - Foto de PD)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Para que nao volte a acontecer!

"Isso" aconteceu na Europa "civilizada", apenas sete decadas atras:


E "isso" foi obra de soldados da nacao mais "democratica" do mundo, ha quatro decadas:

Sem palavras!! Oh Casimiro?

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País de curto prazo (1)

Há dias, ao ouvir na rádio a intervenção de um deputado na Assembleia Nacional sobre a necessidade de uma estrada para o cutelo do seu eleitorado, quase fui às lágrimas outra vez, de tanta emoção. Digo, de tanta tristeza! Dizia ele mais ou menos por essas palavras, que a população do seu concelho já conhecia o asfalto, já sabia o que era o asfalto, e que por isso EXIGIA uma estrada moderna, uma estrada asfaltada!


Não pude deixar de pensar no conceito do “moderno” que está a invadir estas ilhas, influenciando a tomada de decisões que mais cedo ou mais tarde acabarão por afectar a todos nós: se não directamente como utentes, então como contribuintes, pois que como dizia o outro, “em economia não existem almoços grátis”…


Bolas!, às vezes penso que por cá, não obstante os alertas do Sr. Presidente e do Sr. Primeiro Ministro, ainda não nos demos conta da profunda transformação que o mundo está a atravessar ou em vias de encarar. Ainda não estamos suficientemente mentalizados que as bases desta “civilização do petróleo” em que vivemos estão a tremer até à medula. Ainda não assimilamos que a confluência de i) aumento acelerado da procura, puxado pelo crescimento das economias de uma mão cheia de “gigantes emergentes” (China, Índia, Brasil, Rússia…); ii) estimativas de redução drástica das reservas de petróleo num horizonte de 50 anos, conjugado com custos crescentes de produção; iii) corrida dos especuladores financeiros ao petróleo como alternativa de investimento – irão afectar cada vez mais o nosso estilo de vida e as fórmulas de tomada de decisões que temos vindo a adoptar até agora. Desde a camisinha aos transportes, desde o creme de barbear às sacolas de plástico, desde a electricidade aos t-shirts de tecido sintético, todos os derivados do petróleo – sim senhor, incluindo o asfalto betuminoso! – estarão sujeitos a crescentes pressões inflacionárias.


Mas parece que nós por cá continuamos a assobiar para o lado entre dois arrotos de cerveja com asinhas de frango grelhado, que isso é coisa dos gringos lá fora… Continuamos a bradar loas ao asfalto como sinónimo de modernidade, mesmo quando sabemos que o custo do metro quadrado de pavimento com asfalto betuminoso já ultrapassou o seu correspondente em calçada (precisamente por causa do aumento do preço do petróleo), e que as estradas asfaltadas requerem o recarregamento periódico da camada de asfalto, fazendo com que a sua manutenção seja muito mais cara - e complexa pois que exige empresas e equipamentos especializados.


E assim vamos “modernizando” estas ilhas. Já “modernizamos” as ruas do Plateau, um verdadeiro crime historico-paisagístico, “modernizamos” as ruas de Mindelo, enterrando sob o asfalto a poesia de que nos falava B.Léza, Frusoni, António Aurélio Gonçalves e os outros, estamos a “modernizar” a Praínha, e até vamos “modernizar” o belíssimo vale de Ribeira da Torre, em Santo Antão. Enquanto isso, de olhos postos na evolução do preço do petróleo, alguns países na Europa estão a arrancar o asfalto em algumas das suas cidades historicas com interesse turístico, substituindo por calçada artística, a Índia esta a pensar utilizar pavimentos de betão nas novas estradas em vez do asfalto, e nós – vejam só! – começamos a exportar pedras…


É caso para se dizer, somos mesmo um PAÍS DE CURTO PRAZO, ou nao?



("Abre o olho meu povo" - foto de Roberta Jardim)


terça-feira, 29 de julho de 2008

Uma não-crónica sobre a última caminhada

Desta vez não vou escrever nenhuma crónica, vou logo avisando. Bastam as imagens abaixo, belissimamente captadas pelo Hélder Paz.


Não direi nada sobre o verde que já desponta nas encostas da Serra, calo-me extasiado no meio da neblina onde nos transformamos em vultos caminhando trôpegos de verde e de Santiago, não vou sequer escrever uma palavra sobre Nhá Joana, a minha patrícia de Lajedos em Santo Antão que fui descobrir lá em Figueira das Naus, para onde trouxe-lhe o destino e um cretchêu badiu lá das roças de São Tomé nos anos 60 do século passado. Nunca mais pôs os pés na ilha – diz-me entre um abraço e um suspiro silencioso…


Também não vou falar da chuva miudinha quase à chegada do povoado, que nos refrescou a pele suada e a nossa caboverdeana ambição de boas às-águas. Nem tampouco da bela praia de Ribeira Prata para cuja água morna nos atiramos feito meninos perdidamente felizes entre a chuva que agora caía a píncaros e as gargalhadas. Sobre o pontche da Maria Antónia e a cachupa temperada com carne de porco, nem um pio.


Mas poderei falar sim senhor – se me ajudar “o engenho e a arte” - do batuque improvisado ali no bar da Vika, onde a moça prende nas ancas o panu di terra quadriculado de vozes ancestrais, que nos reconstrói a síntese e o espírito da caminhada. Ali desembocamos todos, mais as nossas matrizes e as nossas almas de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santiago, Fogo, Guiné-bissau, Portugal, Escócia e EUA, convergimos todos si-len-cio-sa-men-te para o batuque, o rodopiar de ancas corpo & nervos, a alma em transe e o olhar parado a fitar qualquer coisa indistinta para lá da orla desta ilha, para lá da linha do horizonte…


Hoje, caros leitores, não direi uma palavra. Bastam as imagens abaixo, do Helder Paz Monteiro, escritor de imagens e nosso colega de caminhada…






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