terça-feira, 27 de maio de 2008
Caminhada de Maio: um post para a Eury
Primeiro a urbe “à beira-mar plantada”, o teu Boca Porto que nos espera logo de manhãzinha antes de o Sol lamber-nos a fronte nas ruas de Calheta. O mar ali ao lado, a espuma do mar que nos tenta acariciar os pés no cascalho outrora praia, os recortes da costa, Eury. Pedaços de rochas negras esculpidas pelas ondas na ourela do mar, como que sentinelas dos nossos sonhos de evasão. As mesmas rochas sobranceiras ao pequeno precipício, onde o tal homem e a sua vara de pesca atiram aos peixes sua ambição de garoupa cozida ku malagueta e mandioca de Ribeira Principal. Há, contudo, como nota destoante, a ex-praia negra esventrada até à exaustão com baldes clandestinos de areia para a construção do mundo novo, neste conflito quotidiano entre a panela e a cratera…
Por fim a água tépida no mar de Porto Coqueiro que nos lava a alma, o cansaço, e os pés meio doloridos. O churrasco, a cerveja gelada, o bom humor, as gargalhadas do Zé Pedro e da Rosalina, o sono que nos envolve suavemente no hiace até a Praia. Delicioso, Eury, delicioso! Fique com as fotos – pá bô podê matá sodáde lá na terra longi.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Momento
Entre o azul e o branco, há o olhar. E o sorriso. O cordão que enfeita no peito-menina da Keila o coração de terra batida e páia tinguinha. E por detrás, a casa inacabada onde os blocos acenam ao mundo a metafísica dos discursos. Dá-me ganas de bradar contraste. E, no entanto, fico em silêncio, amarro-me ao poema inútil que agora escrevo à meia dúzia dos meus leitores.
Ecoa-me ainda pelos tímpanos a canção e o hino daquela tarde em Junho. Era Junho, lembro-me bem. “Canta, irmão, canta meu irmão!”. E na curvatura do vale, por momentos a liberdade foi hino e o homem a certeza nas encostas de Coculi, Boca de Coruja e Boca de Ambas as Ribeiras. As vozes infantis bradando às vozes de barba e cabelos crespos, falta de chuva e contas por pagar, para que com dignidade enterrem a semente no pó da ilha nua. “Canta, irmão, canta meeeeeeeu irmão!”.
("Essencia" - foto de Paulino Dias)
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Um post curto no dia dos Direitos Humanos
Programando para uma década, plante árvores...
Projectando para uma vida inteira, eduque uma pessoa."
Provérbio Chinês
(Obrigado ao meu amigo Zé Gomes, que me deu este provérbio a conhecer...)
terça-feira, 13 de maio de 2008
150 anos da Praia: Crónicas da cidade 3
És cidade, minha piquena Dadá. Mesmo que hoje ela não seja mais que uma ténue lembrança no horizonte que contemplas da tua casa em Agua Gato, São Domingos, és cidade, minha amiga. A cidade outrora calcorreada, com sacos, balaios, aventais – sacos de fijom, balaios de milho verde, aventais de poemas e do batuque em rebuliço no teu ventre. A cidade que te levou àquela festa na Cidade Velha em que bô pilá funaná ti manche, a cidade que teus olhos abarcavam para lá de Rubom Chiqueiro entre o peso do balaio e os raios de Sol que despontavam já no horizonte.
A cidade, minha amiga Dadá… A tua cidade, o teu ilhéu, as tuas ruas seculares onde respiram ainda as naus de achamento, o teu Platô com o mercado a tiracolo onde deixavas a verdura e pedaços da tua juventude.
Hoje, minha amiga Dadá, trago-te a cidade num abraço longe, e nos versos de um poema…
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(“Dadá de Agua Gato” – foto de Paulino Dias)
sexta-feira, 2 de maio de 2008
A vingança 2 (conto)
Continuação deste conto…
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Bastava um telefonema, Sr. Juiz. Um único telefonema, uma frase de desencanto e pronto. Estaria tudo terminado: a expectativa, o sonho, as noites em claro à espera de ouvir o tal chamado que nunca veio, o mundo maravilhoso que quis seguir quando deixei as ladeiras da minha ilha. Precisava apenas um telefonema para soltar as amarras que a ele me prendiam para que pudesse – depois da queda – seguir o meu caminho. Um telefonema, a verdade e o desengano, Sr. Juíz.
Mas não! Preferiu o silêncio vil, a covardia mesquinha, o impudico esquecimento. Preferiu a minha eterna raiva a uma tristeza que em si seria passageira, depois da lágrima que se soltaria naturalmente após o baque. Preferiu a minha morte lenta – dolorosa! – entre o escoar do tempo nos ponteiros do relógio e o calcorrear as ruas de Sóncent com a tina de cavala fresca na cabeça. Oli caváááááááálaaa! Caváááála frêêêsc! Angústia do telefone ali mudo em cima do parco mobiliário nas tardes em que voltava da labuta. Oli melôôôôn! Melôôôn frisquiiiiim! E o silêncio. Insónia. A lágrima solitária primeiro, a raiva depois. A raiva que vai se alastrando inexoravelmente pelas artérias. Quem crê bediooon? Oli bedioooon!
A raiva, Sr. Juíz. A raiva. O Senhor sabe o que é isso, Sr. Juíz? Hoje ‘m tem sô arenque, nhá Bia, ocê ta comprá um kilim? Sabe sim senhor, todo mundo sabe. Todo mundo já sentiu raiva alguma vez na vida. É uma coisa assim que nos invade, ora lentamente, ora de rompante que nem temos tempo de gemer um ai e o monstro ali já está, alojado entre o nó na garganta que nos impede a fala, e os nervos tensos como que a preparar o bote. O desejo de ferir. A ambição da humilhar. A gana de matar. Matar, Sr. Juíz. Ó Djosa, bsôt pescá algum cosa hoje pam podê bá vendê na Monte Sossego? A raiva é uma coisa fudida, Sr. Juíz. Olha o respeito, menina!, está num tribunal! A raiva…
Mas nunca pensei em matar este fulano, juro! Não o seu corpo, a sua mente, o seu nome, a sua raça. A minha raiva era mais subtil, Sr. Juíz. Mais fria e calculista. Concentrada. A minha raiva – não sei porque cargas d’água – dirigia-se sobretudo contra o seu pirilau. Isso mesmo, Sr. Juíz, o estupor do pirilau. Que me fez cair na tentação ali no quintal de bananeira de Nhá Mari Gregória depois das promessas de visto pá Holanda. Que me levara os três vinténs, a vergonha, e o amor sincero e puro de Piduca de Nhô Ntunzim. Que me jogara nestas ruas da outra ilha com uma tina de peixe na cabeça depois do silêncio doloroso do telefone na mesinha da cabeceira, por meses a fio. Que acalentou depois minhas noites de olhos grilidos em espera, à mistura com desejos insanos de vingança!
Oli cavááááááála! Cavááála frêêêsc! E soube então – por um acaso, Sr. Juíz! - que ele estaria de regresso a Cabo Verde na semana seguinte, junto com a mulher e os filhos, para o Festival da Baía das Gatas. Ainda por cima com a mulher e os filhos! E ele nunca me dissera nada, o estupor. Nunca soube que ele era casado, com família constituído la ná tchon d’Holanda onde prometera me levar só para me roubar os três vinténs…
O que o Senhor queria que eu fizesse, Sr. Juíz? Depois do silêncio do telefone, depois das noites de insónia, depois da angústia, depois da solidão, depois da raiva, o que o Sr. queria que eu fizesse com o seu pirilau, ahn, Sr. Juíz?
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Dia do Trabalhador: um post sem palavras
terça-feira, 22 de abril de 2008
150 anos da Praia: crónicas da cidade 2
Não, não trabalho aqui - afirma-nos o moço. Sou segurança, moro ali em Lém Ferreira. Mas venho aqui todos os Sábados antes de ir ao trabalho pa cata um kusa, às vezes antes das nove já tenho feito até dois contos. Nhôs ka ta atcha ma ´n stá drêtu? Si tudo kusa agora ê PDM nû tem qui ser PDM tambê na cabeça, ou não?? Fogem-me as palavras e entre nós volta a cair um silêncio de espanto. Depois de tantos discursos sobre o assunto, este, sem dúvida, a melhor abordagem de PDM que já ouvira. No cais de pesca num Sábado de manhã.
Nhôs ka ta atcha ma ´n stá drêtu?
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quinta-feira, 17 de abril de 2008
Proxima caminhada / 100o. Post
Trajecto: Ribeira da Barca, Ganxemba, Atchada Ponta. No concelho de Santa Catarina. Já estou até curioso para ver a famosa cascata de que me falaram lá em Ganxemba!
quarta-feira, 16 de abril de 2008
150 anos da Praia: crónicas da cidade 1
Amo esta cidade, caramba! Amo-a, sim senhor. Por detrás do outdoor que nos violenta o olhar, para além da calçada esburacada e das vacas pastando a nossa incredulidade urbana, para além do caçu bodi e dos cortes de luz, há a cidade que eu amo. A cidade do puto a passear de bicicleta na avenida, a cidade da moça da padaria com o belo sorriso que nos enternece entre o cheirinho bom de pão fresco e a chávena de café, a cidade da mulher "di fora" no mercado do Plateau que me vende a batata doce e o coentro entre duas estórias, a cidade de Quebra Canela às 6h da manhã, a cidade que se transcende e nos envolve e nos acarinha e nos abraça. Há a cidade que eu amo, meus caros João Gomes, Abraão, Djinho....
terça-feira, 15 de abril de 2008
Duas notas a César Schoffield Cardoso (ou a partilha de uma angústia...)
Recebi com agrado o e-mail que me enviaste com a programação das actividades na Fundação Amilcar Cabral no Plateau (thanks, man!). Fiquei especialmente ansioso para assistir a tertúlia que vai ter lugar hoje (15/04) às 19h30, intitulado "A educação do olhar", com Abraão Vicente, Tchalé Figueira e Mário Lúcio.
Ansioso, meu caro César, porque desde diazá venho carregando comigo uma angústia cruel: como se "educa" para a arte? Quer dizer, "educar" pressupõe um guião, um modelo, um paradigma, um standard. No que diz respeito à educação para a arte, quem tem "legitimidade" para definir este standard? Com que critérios? Como definir a "boa" arte e a arte "ruim"?
Será que não seria melhor falarmos em "estimular" para a arte? Na minha opinião, a percepção artística (e, portanto, a apreciação e avaliação) é individual e intransmissível. Já o "estímulo" para se consumir arte, aí sim, pode ser promovido, divulgado, ensinado. Estarei enganado?
Oxalá hoje à noite saia de lá mais esclarecido e menos angustiado, caramba!Um abraço, bro...
("Autoretrato", quadro do Abraão Vicente)
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Coisas boas da vida 3
Acabo de defender a minha tese de mestrado em Gestão Global, com tema sobre cooperativismo em Santo Antão. Nota máxima, eh eh eh...
Daqui de Lisboa, entre o friozinho e a chuva miúda que cai do outro lado da janela do cyber café, mando um especial obrigado a todos os que me ajudaram, em especial às pessoas que "chateei a cabeça" com as entrevistas (em Santo Antão e na Praia), as pessoas que me motivaram (o Antero Veiga e os outros), as pessoas que toleraram minhas noites de clausura em comunhão quase libidinosa com o computador e o bloquinho de notas. E a todos os outros, naturalmente. Valeu, pessoal!
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
Duas regrinhas para o Dr. Gilles Filatreaut (TACV)
Director Geral da TACV.
Escrevo-lhe estas duas regrinhas directamente de tchon de Lisboa onde me encontro, tendo chegado aqui no voo VR606 do passado dia 07/04/08.
O que me levou a tomar a atrevida decisão de lhe endereçar estas linhas, Dr. Gilito, é precisamente o atraso de 3h15mn que tivemos de gramar ali na sala de espera do aeroporto da Praia, ouvindo de tempos em tempos a voz quase robótica do altifalante a sussurrar no nosso ouvido (assim, como uma carícia, caramba!) “informamos aos passageiros com destino a Lisboa que o voo 606 encontra-se atrasado (grande novidade!) por motivos operacionais”.
E aqui, entre duas chávenas de café e uma tentativa de aproveitar para tirar um djonga (posto que tinha levantado às 04h20mn da manhã para poder cumprir o horário que me tinha sido exigido para apresentação no aeroporto), comecei a cogitar algumas sugestões atrevidas para V. Excia., para aliviar o calvário tão recorrente de filhos de parida como eu que têm a desventura de comprarem o “prazer de viajar bem”, nesta companhia que V. Excia. tão doutamente vem dirigindo:
1. Oferecer a cada passageiro, no acto de compra da passagem, um baralho de cartas: assim o pobre coitado terá com que se entreter nas salas de espera durante os atrasos;
2. Investir em relógios despertadores para o pessoal tripulante, garantindo que os mesmos tenham um volume de toque com os decibéis necessários para lhes tirar da gostosa caminha: em caso de dificuldades financeiras para a compra dos despertadores, ofereço-me para organizar uma campanha de doação ou mesmo prestar gratuitamente uma consultoria especializada para determinar uma taxa a cobrar de cada passageiro nas passagens – a “Taxa de Despertador”;
3. Diligenciar junto da ASA para que autorize a Nanda lá de Órgãos Pequeno a montar a ali na sala de espera a sua barraquinha de cachupa guizada, carne de porco assado, linguiça e torresma: que o pãozinho que nos serviram depois de ultrapassadas as duas horas de atraso, estava tão dormido que quase se lhe podia ver as ramelas;
4. Discutir igualmente com a ASA a criação de um espaço privê dentro da sala de espera, para maiores de 18 anos, devendo de imediato providenciar um programa completo de shows eróticos e live sex para ajudar os moços xatiadu si a aliviarem o stress;
5. Organizar cursos intensivos de natação para os passageiros de Frequent Flyer Class: assim, em caso de atraso, e para o pobre coitado que não grama lá muito andar de navio, pode ir sempre a nado nas suas deslocações inter-ilhas; até já estou a ver o meu amigo Djosa em vigorosas braçadas a dobrar a Ponta Moreia rumo a São Vicente, arrastando a sua mala de viagem e a bolsa de plástico com os dois quilos de linguiça que leva de encomenda…
6. Oferecer, em parceria com a Federação Caboverdeana de Artes Marciais, um curso de karaté para os tripulantes: neste voo que originou estas minhas humildes sugestões, Dr. Gilito, a encarregada do pessoal de cabine quase me foi aos tabefes só porque, num acto de protesto e cidadania bem humorada e civilizada, organizei uma sessão de aplausos logo assim que a equipa de tripulantes entrou no salão de espera, 3hs depois da hora constante no meu bilhete de passagem. E dizendo-me, publicamente em alto e bom som, que a continuarmos as palmas, ainda nos deixariam no chão porque elas tinham sido chamadas para substituir uma outra equipa ou coisa assim. Entendi pelas suas palavras o tamanho do favor que a Sra. estava a prestar-nos, e quase que fui às lágrimas, tão emocionado que fiquei com a sua filantrópica decisão, Dr. Gilito! Por isso, karaté para o pessoal, Sr. Director! Não vá um passageiro menos civilizado e menos agradecido estragar-lhes a maquiagem um desses dias perante reacções tão sublimes a uma reclamação justa e educada de um Cliente!
Devo, entretanto, reconhecer o profissionalismo e o respeito aos Clientes demonstrado pelo Comandante Augusto que, já dentro do avião, humildemente pediu-nos desculpas em nome da tripulação e explicou-nos tintim por tintim o que se tinha passado: que desde as 5hs estavam a postos à espera de um elemento da tripulação que estava de folgas. Fiquei tão grato pela explicação que nem ousei imaginar como é que se vem fazendo o planeamento operacional na TACV, Dr. Gilito.
Por último, Sr. Director, devo dizer-lhe que estas regrinhas não foram de modo algum motivadas pela briga de comadres que temos acompanhado pelos jornais, entre a sua direcção e o seu pessoal. Uma vez que as únicas informações que tenho são as que leio nos jornais, não me compete, neste momento, fazer juízos de valor ou tomar partido. Quis apenas, enquanto CLIENTE que assinou um contrato de compra e venda de um serviço com a TACV (pagando caro por isso…), reflectir sobre a forma como nós, pobres coitados e filhos-de-parida-quase-sem-alternativas, temos vindo a “apanhar por tabela” com toda esta confusão. E quando houver alternativas, ahn, Dr. Gilito?
Lisboa, 09 de Abril de 2008
Paulino Dias
Frequent Flyer da TACV, cartão VRA77K2
(com dois dedos cruzados atrás das costas, em figa conhóta para espantar o azar de um outro atraso de 3hs no meu voo de regresso dia 11…)
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domingo, 6 de abril de 2008
Crónica da Serra...
Caminhamos outra vez no passado domingo, dia 30 de Março, Kaká. Caminhamos, para descobrir, para exercitar, para sorrir, para confraternizar, caminhamos para também seguir este nosso destino secular que a ânsia de busca cristalizou na sola dos nossos pés crioulos.
(Fotos de Paulino Dias)
segunda-feira, 31 de março de 2008
Mudança de profissão

Eu já decidi: vou mudar de profissão mais uma vez. Qual consultor qual quê! Vou virar negociante de banana. Isso mesmo: vendedor de banana.
Depois que pagamos 100 paus por uma bananazita ali no Hotel Prestige em Assomada, no último domingo, compreendi que estou no lado errado do empreendedorismo: negócio mesmo é vender banana, caramba! Onde estive todo esse tempo, hein?
E a explicação da moça do balcão, meu Deus! Quase que lhe roubei um beijo, tão emocionado que fiquei com a candura da sua explicação: “sinhor, na tudo hotel ê assim…”. Não é lindo, gente? Vá lá, apreciem a musicalidade da frase. Peguem-lhe o gosto, malta. “… na tudo hotel ê assim…”. Quase um poema, caramba! O mal foi suportar logo depois a gozação do Djack e do Afonso, que tinham comprado bananas ali no mercado ao lado, por 15$00. Tinham que me estragar a emoção, esses moços!
Por isso, anuncio-vos com toda a pompa circunstância, daqui deste meu cantinho intimista, que vou virar negociante de banana. Mas não bananas quaisquer, vê-se logo: só vou vender banana com pedigree. Com nome de família, raízes aristocratas, sangue azul, tipo assim coisa chique. Melhor: coisa com prestígio. Por enquanto vou lançar uma campanha para lhes escolher o nome (claro!, tem que ter marca, estão a pensar o quê!). Ofereço uma banana a quem me enviar a melhor sugestão de marca e slogan para a minha marca de bananas made in Sintanton. E vou negociar com o meu vizinho João Branco para acrescentar um café bem margoso ao prémio…
Poooorrrrrra!!!!
sexta-feira, 28 de março de 2008
Vasculhando o baú 1
AZÁGUA
Era verde a cor dos teus olhos ali no sopé da colina naquela manhã de Agosto. Podia senti-lo, enquanto caminhava ainda trôpego de sono a teu lado, na mão direita o balaio com a cachupa guizada em banha de porco, duas batatas assadas, o termo de café, duas canecas e as colheres embrulhadas numa toalha quadriculada, que mamãe nos preparara para o dez-horas de logo mais. Assobiavas uma canção qualquer entre a farfalhar das folhas de bananeira ao redor e o cascalho quebradiço que me feria a sola dos pés. Nunca soube a letra da música mas tenho em mim que era alegre como o chilrear dos pardais que nos espreitavam dos ramos de ervilha.
Levavas ao ombro tua enxada no cabo longuilíneo de pau de goiabeira, e a tiracolo a algibeira de semear que mamãe costurara para ti, com dois litros de milho e uma mão fechada de feijão fava. De vez em quando interrompias o assobio para sorrir, como que para ti mesmo. E olhavas para mim com ternura de verde nos teus olhos de azágua, sim senhor, lembro-me bem, era verde a cor dos teus olhos ali nas veredas de Tapume e Pedregal naquelas manhãs de Agosto prenhes de sementeira.
Os espantalhos viriam depois quando despontassem à vida – e à esperança de boa azágua – as folhas tenras de verde rompendo a crosta da ilha. Milhos. Feijões. Pés de abóbora. Cruzes de caniço feito soldados em prumo, revestidas de trapos e sacos velhos acenando à brisa suave a tal ambição de milho verde. A ameaça silenciosa aos corvos e aos pardais de manhã à tarde, e a ameaça barulhenta do “toca-lata” com o Gilson, o Osvaldo Lis-Cóque e o César por-Déus, mais o xô pardal s´bi nó tópe d’tchê na covada Menél Gonçál manda dzêb s´êl pegób êl te matób, xôôôô pardaaaaal, que os moços do Cordas de Sol acabariam por popularizar mais tarde. (...)
Eram verdes os teus olhos quando te debruçavas sobre as covas de três quatro e cinco grãos de milho dois de feijão para espantar os fantasmas de secura e terra vermelha. Assim simetria na palma das tuas mãos, assobio na curva dos teus lábios e no dorso vergado sobre a terra, persistência no chão crã da ilha, enxada, teimosia, força. E a ternura de chegar a terra aos pés de milho primeiro, a monda e remonda depois, o cortar de flores antes do Sol a pino, a palha ressequida, e as espigas erectas sob nossos olhos de menino na pedra de prentém, camoca com leite de cabra e cachupa de milho de terra com toucinho e couve de Rabo Curto.
Hoje, vinte anos depois, ondê teus olhos verdes de azágua, Junzim d’Polina? Ondê tua enxada de cabo de goiabeira, ondê teu alegre assobio, tua algibeira de dois litros de milho e a mão fechada de feijão fava cruzada a tiracolo? Osvaldo Lis Cóque passeia nas ruas de Sóncente seu poema de juvita e óleo queimado, e eu – merda! – que faço eu aqui debruçado sobre a folha em branco como um moço entristecido? Há um mundo de internet lá fora, feijão enlatado com rolinhos de chouriço de Trás-os-Montes, festas do Fatiota ali no Flampa, cachupa guizada com longuiça di terra aos sábados de manhã lá na casa de pasto de Nhá Antónia no Plateau, cerveja gelada com búzio grelhado no barzinho de Achada de Santo António...
Ondê o verde nos teus olhos de minha azágua, pai?
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terça-feira, 25 de março de 2008
Blog de quel bon
Infelizmente posso escolher apenas dois (dura tarefa, JB, dura tarefa!):1. Amante da Rosa - pelo aprendizado
2. Bem Dzide! - pelas memorias e pelas gargalhadas...
E poderia acrescentar ainda mais, sem repetir os que ja foram "nomeados": Sinta10 (pelo aroma da ilha...), Veredas (pela poesia...), etc.
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quinta-feira, 20 de março de 2008
Para ler
Porem, o filhodaputismo diário, inclusive praticado por pessoas que pela sua formação, status social, cargos se nutre expectativas mais optimistas me indigna profundamente e no dia que ficar indiferente estarei próximo da vegetação e será então hora de mudanças (de rua, de cidade, de país, de nacionalidade…) "
Palavras do Olavo, num texto deliciosíssimo... Confiram.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Cosmetica 1
Como a menina dos teus olhos.
("Corda" - foto de PD)
segunda-feira, 17 de março de 2008
Movimento CBV (Coisas Boas da Vida)
Eu já tinha feito este exercício ha alguns meses atras (ver aqui e aqui). O Café Margoso já avançou. Faça você também também...
("Dzemperin na Ponta do Sol" - Foto de Paulino Dias)
sábado, 15 de março de 2008
Palavras clandestinas
Era para eu me redimir dos mil pecados na curvatura dos teus lábios, as mãos trémulas de Março passeando na tua epiderme crioula. Era para eu ser poeta na menina dos teus olhos. Nem sei porque – caramba! – desisti a meio dos degraus que me levariam até o suor e o gemido cúmplice no deambular das horas. O verso e a nota de violão que amortecem pela calada da noite a distância, a saudade e o desejo na ponta dos meus dedos. Escrevo. Escrevo-te. Em desespero para que da folha não me fuja o poema e a memória. Rápido. Febril. Os meus dedos alternam-se entre o teclado e a taça de vinho tinto que me sabe a pecado. Alonga-se a madrugada pelas esquinas de Palmarejo. Adivinho seus odores de cerveja gelada, palavras ocas na mesa de um bar qualquer, uma porta que se abre si-len-cio-sa-men-te, um soutien que se solta com sensualidade quase poética, a calcinha arrancada na fúria de um desejo incontido, gemidos, cravar de unhas na pele suada, gritos, griiiiiiiiiiiiiiitoooo! Óh diab! O cheiro ocre de esperma que violenta a tal solidão das ruas à meia-noite, e o lençol amarrotado depois. Era para eu te escrever um poema qualquer nesta noite de lua crescente…
(Foto de Nana Sousa Dias)
quinta-feira, 13 de março de 2008
Um outro lado
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Subida ao Pico d’Antónia: Um bilhete para Kaka Barbosa
Dvéra dvéra, Kaká, há momentos que nos entranham a alma sima raíz de poilon tá esgrovetá pólme de subsolo no ventre da ilha. E lá no fundo se alojam para o resto das nossas vidas, assim poema, assim memória, assim grito de espanto solto inesperadamente na vertigem do precipício: obikuelu!!!!
Foi assim a subida ontem ao Pico Ntoni, Kaká. Lambia-nos a pele um friozinho de fevereiro ao descermos dos hiaces no Monte Tchóta. Ponto de partida, contagem dos participantes, foto de família. Diz-me a Célia que desta vez batemos o recorde: 47 caminheiros. Entre crioulos de várias ilhas, americanos, ingleses, espanhóis e brasileiros. Mais fotos. Ansiedades que já se despontam. Há no ar uma alegria genuína, um farfalhar de ani-cidades por entre o cheiro de eucaliptos. Espreita-nos a imponência do pico por entre a folhagem das árvores. Pés
Adiante. A subida foi um tanto puxada. As vistas são deslumbrantes. A ilha que se espraia do Pico Ntoni à borda do oceano que lhe deteve o sonho de evasão. A bacia de São Jorge, as casas que se espalham lá em baixo feito casinhas de bonecas. No outro lado, a ponta do vulcão de Djar Fogo à espreita por entre as nuvens lá longe. O ventinho que nos acaricia suavemente a pele empoeirada já. E o primeiro pico: o precipício, a vista, o silêncio e a música depois. Sim senhor, Kaká, a música: porque não faltou lá em cima um violão, tocador de São Nicolau, grogue de Sintanton pa fazê um brinde, e grogue de Stancha para secar o suor. Carlos deve ter sido o primeiro crioulo a cantar “assassinato d’um tchuck” acompanhado pelo violão do Pedro, ali no telhado de Santiago!
E o precipício na pequena subida até o pico mais alto. Chiça Kaká, que até eu, cabra macho nascido e criado na vertigem das rotchas de Sintanton, tive um cagaço dos diabos! A coisa assusta, brother. O fundo da ilha num lado e noutro das nossas ihargas. O medo que nos aloja nas canelas trêmulas. Vertigens. Mas encanta, mesmo assim. Aliás, talvez até por isso: sentimo-nos arrepiantemente insignificantes. Porra, lá em cima, quase a tocar o céu, era para nos sentirmos mais próximos de Deus, assim uma espécie de parentes próximos na sua grandiosidade cósmica, não é? Mas não: sentimo-nos minúsculos, Kaká. Grãos de poeira, tão só, ao sabor das horas.
Em Covoada de São Jorge, depois de horas de descida, esperava-nos um carneiro sobre as brasas de um grelhador, mais a cerveja gelada e a simpatia do Chico. Ah, Kaká, mesmo com o corpo esbodegóde sima um saco de batata que rolá de rótcha, ainda um pila um funaná bem finkadu, ali no sopé do Pico Ntóni! Bêbado de ilha e de poemas. Bêbado de Cabo Verde profundo. Bêbado de Pico Ntoni, Kaká...
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Caminhada deste Domingo: Piku Ntoni!!! (Duas notas para José Luís Hopfer Almada)
Já quase que sinto as rugas da ilha sob nossos pés de "caminheiros sem fronteiras", levo na mochila - junto com a garrafa de água e a máquina fotográfica - o verso deste teu poema que semeou na minha epiderme esta fome insaciável de Santiago...
(...)
Todos nós éramos
solilóquios de pedras nuas
velando a geometria encarcerada da vida
sob a ténue sombra dos ciprestes
e a miraculada grandeza dos poilões
diálogos verbos pétreos
reverberando
nas noites longas da Assomada
(...)
JLHA
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Resposta ao João Branco
Respondendo ao teu desafio, eis abaixo 12 palavras que de imediato me vêm à mente ao ler o teu post: mas o significado, sorry, só a minhalmadequasepoeta o pode dizer...
Fajã
Lua
Mánha
Poema
Cimbron
Dignidade
Psú
Lavada
Esquina
Cutelo
Min-gó!
Respeito
Candêr de pitrôl

CANDÊR DE PITROL
A Electra tem nos deixado a todos no meio de uma escuridão dos diab... nãããã, não vou falar da Electra. Que sobre isso muita tinta já correu, muito já se disse, não há muita novidade por aí a não ser as 101 Dicas Para Viver Sem Luz que me vejo forçado a pôr em prática dia sim dia sim (por exemplo, estou a pensar seriamente em adoptar um look rasta ou black power: morro de medo de ir a uma barbearia nesses dias e ...puf!, a maldita electricidade escanelar-se bem a meio do corte de cabelo!).
Mas neste último mês não pára de me assediar os miolos aquela imagem do candêr de pitrôl que mamãe colocava todos os dias à noite no quarto que nos servia de sala de jantar. Quase que o vejo – alucinado que fico, à procura de luz luz luz!, quando chego em casa à noite – assim no seu formato cônico de lata reciclada, a “cabeça” de tampa de cerveja feito coroa de rainha, encimada com uma pequena forma cilíndrica por onde passa a torcida. E a chamazita – Deus, a chama! – que nos alumiava as horas, o mundo ao redor, as histórias de Ti M´guêl de Treza ali à porta da casa antes que invadissem o povoado os gongons e as bruxas de meia-noite a caminho de Esponjeiro.
O candêr de pitrôl fazia parte definitivamente do nosso mundo e do nosso imaginário. Antes dos cabos elétricos rasgarem os vales da ilha até os recôndidos de Fajã a Rabo Curto, não havia casa em que não se encontrasse esta imprescindível ferramenta, em todas as lojas era obrigatório ter lá o bidon de pitrôl que Nhô Chico d´Helena ia reabastecer de tempos em tempos com aquele enorme camião de combustível da Shell, e todo menino de mandado que se preze teria que saber comprar meio quarto de pitrôl ali na loja de Jóna Lima. Detestava comprar pitrôl, pessoal. Assim como levantar a torcida do candeeiro para aumentar a chama. O cheiro que nos ficava entranhado debaixo das unhas – imagina então se justo naquela hora nos resolve aparecer a tchutchinha, bolas!, quase que o beijinho saía com gosto de... pitrôl!
A utilidade do candêr de pitrôl não se resumia apenas à iluminação, claro. Devido aos supostos poderes curativos do pitrôl, o candeeiro era assim também uma espécie de mini-farmácia ou armazém de remédio: alguém estava com dor de barriga? Traga o candeeiro! Umbigo inflamado? Candeeeeeeiro! Comichão nos testículos? Toma lá torcida de pitrôl!! Mordida de cempê? Pitrôl era remédio santo...
Tínhamos também lá em casa o candeeiro de vidro, comprado lá na loja de Nhô Zeferino em Povoação. Mas este, credo!, só para ocasiões especiais tipo visita em casa, ou quando escrevia cartas pa Nununa em Holanda. Colocado ostensivamente no centro da mesa da sala sobre uma rendinha, o seu clarão alaranjado impunha-se rei e senhor sobre os rostos ansiosos e os rostos de saudade, enquanto mamãe ditava-me as mantenhas e abenças para o filho na terra-longe. O pior azar que nos podia acontecer era quebrar o vidro do candeeiro. Então o cinto de três pernas comia solto, como numa desgraçada tarde em que acidentalmente dei um encontrão na mesa, fazendo derrubar candeeiro, vidro, renda, a fotografia a preto e branco da minha prima Paulina na moldura dourada... meu pai ficou uma fera!
Mas não havia candeeiro que nos deixasse com os olhos tão grilidos de espanto como o petromax de Ti Jôn d´Bléca. Para nós aquela era uma novidade de outro mundo, era ver a potente luz a espalhar-se desde o corredor da sua casa até os pilares de cana ao redor e o trecho do caminho que passa em frente ao portão, alumiando-nos as mã-gatchádas, os pés e as vozes de menino nas noites estreladas de Fajã, os pés as vozes e a LUZ na tal comunhão sobre as horas noturnas em movimento.
Não sei porque me vêm tudo isso aos miolos justo agora, caramba!
("Lamparina" - foto tirada daqui)
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Ilhas na Cidade
Vamos pensar nisso? Talvez por altura do 150º aniversário da Praia.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
"Eurásia"
Do meu amigo “Peter Silva” - companheiro das caminhadas de domingo, das achadas grávidas de pó e gargalhadas, dos cutelos deste Santiago profundo -, recebi este belíssimo poema na língua di tera. Obrigado pela participação, óh poeta!
N’gadanha na témpu
N’futi-futi na nety…
N’kônxi Eurásia!
Dagúma,
Frondôza, mimôza,
Prendada!
É dân ku stângu!
N’skúda na si voz
Meludióza!
N’lâbilâbi na krizta di sê pensamentu,
Ki luminâ’m nh’alma,
Sêndem xintitu,
S’kankarân mimória!
Bai di li, bem di lâ,
Nu marra friôlu, kômpassádu,
N’trokôla xintidu!
Xih!
Djôgu di mórti,
Atáka li, difêndi la,
Pa s’tibôrdu pa bômbordu,
Lumi sêndi, sukúru fitchâ,
Núbri labánta!
É môstra’n sê vergonha!
Strubáda rabenta, krân!
N’mânela tékla,
N’fukufuki’l nhâs krêris na són di letra,
Pan dismiôla’l butunku di bêz!
É lambuza inda si mê!...
Pa máz kin kunsa,
Pan dôlma’l xinditu,
S’pêransa, stribinka!
Fumu bránku, nem sinal!
Nha dizêju lagônguido,
Frutchi na missênha, sem bildjêti, nem passapórti,
Na s’pássu, é sêndi moda strêla,
N’bârka na nety…
Lebâ’l kêbrantu nh’alma,
Sôtádu, rabentádu!
Kâda bêz kin prâma na nety,
Dâ di dâ, kin’ôdja Eurásia,
N’ta xinti kâ sâbi ta entranha’n,
Ta levitâ’n, ta lêbia’n k’un sabura!
Ki ta disfâniká’n, ta n’tchôtchá’n Kâkú!
Kôrda môz!
Lembra ma bu recebi águ’l baptismu,
Kâ’u da lâstru, pa satanáz inferna’u!
Na kâxa PC,
Ôdju d’Eurásia n’fitissádu,
Ta garbáta, ta baskúdja, ta rabôlbe’m ti tutánu
É ta frútchi ki nem cendêru,
Ta barganha ki nem galápu!
Ta n’kuralâ’n nês prizôn d’ildjêu – prendêudu!
Mô kâbra na kúral.
N’ta kúda gô!
Sê dismamânta, é bâza na mar!
N’ta frantchi’l anzol, Kâ ta kâpri, nau!!!
Ku fôrsa’l s’kônxu, n’fazi bandôba, kôraçon – abruninci!
Nem ki bem térramóti, pa kába – úpu!
N’na, gô kê lâpi!...
Kôraçon ta sangra, n’pêga boba d’Eurásia,
É um krêris,
Ki ta marlôtá’n,
Mô ratádju!
É luminári na nha kôrpu,
Ki ta kírsi, é finadu ki tôma’n,
Piku d’inférnu, nem kê lebâ’n!
Kâ tem missa, nem ága-bénta
Ki ta s’kônjura sê kêbrantu!
Eurásia, Eurásia, Eurásia!
Di trâbéssu n’ka ta bai,
Nh’âlma, nha sprítu, stá na bum ô!
Si nês planeta nu kâ djôndju,
Nu ta djuguta’l ti lâ+i, na Kelôtu!
N’ta spêra’u, píamm!
Kê pa nu djunta, pa nu brinka, brinka ku litôn!
Tcháda Santantóni, 10 di Janêru di 2004
Peter Silva
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Crónicas de Fajã 9
Revejo da janela o azul claro do céu de Pinhão. O verde nas canas ao redor da casa – teus olhos. Sinto novamente o teu cheiro no parapeito, o cheiro do pecado com teus cabelos soltos sob minhas mãos de dezembro. Tudo me lembra este teu cheiro: o lençol alegremente estampado (que ficou ali jogado no chão - desprogramadamente), a toalha de banho que partilhamos de seguida, até o abraço terno da minha mãe que me espera na soleira do portão enquanto me pergunta como ficaste. Tudo me lembra você.
Junzim d’Pólina sacode a última gota de grogue do copo e conta-me dos tempos idos. Nhô Gustim de Pinhão, com quem fazia parelha nas paredes das FAIMO. Frank, o moço de coração bom, também daquelas bandas, ma de “linga rum” como o diabo. Jinja, filho de Nhô Mateus lá de Pinhão (o mesmo que noutro dia mostrám camin”). Que gaiatamente lhe surrupiava pedras e calços na levada de Pedrene. A namorada que lhe devolveu as cartas numa tarde má-criada de outubro (esta uma outra “estória”...!).
Mamãe acaba de entrar com uma tijelinha de cachupa guizada e duas bananas para o seu codê. Tudo me lembra você. Nem sei porque deste meu espanto...
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Primeira caminhada do ano...
(“Caminhada Mosquito d’Horta – Telhal de Engenhos, 27/01/2008”, fotos de PD)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Em jeito de biografia 3
(“Fretcha dzurida ma Tópe de M’randa tá spretá” – foto de PD)
Em jeito de biografia 2
(“Fretcha dzurida na tarde de rótcha e céu” – Foto de PD)
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Em jeito de biografia 1
("Fretcha dzurida em note de lua cheia" - Foto de PD)
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Resposta ao Kaka Barbosa
Um abração, fico à espera do convite para a música!
(“Nhô Mateus ta mostrám camin” – Foto de Paulino Dias)
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Crónicas de Fajã
Volto a dar de caras com a manhã fria neste planalto de Fajã, quando abro a janela do quarto. Tenho as pernas doridas depois das cinco horas de caminhada de ontem, entre Xoxô e Corda, com os meus amigos americanos Jim e Deborah. Mas valeu a pena, caramba!, penso cá com os meus botões. A bacia de Xoxô que se abre como uma flôr após contornarmos a curva do Canto, o famoso erotismo pétreo de Lombo de Pico com a sua torre que mais parece um pénis erecto. Não faltam as bolas, as mangueiras no sopé parecendo pentelhos eriçados, as gentes ao redor nas suas casinhas de telha e palha tinguinha... A vista do vale de Ribeira da Torre a partir das ladeiras de Losnã tem o sabor de um poema que nos enleva assim de repente. Assim como a cerveja gelada e o sorriso da Milú que nos espera no bar do Sr. Domingos de Bia em Corda, enquanto aguardo o carro para Povoação...
Há dias fui igualmente até Pinhão, com o Maica de Nhá Joana, que vive em França. Subimos pelo caminho de Tope, passando por Selada de Ribeirinha de Jorge, com o precipício da Ribeira de Pedréne no nosso lado direito, descendo depois até a Vila de Povoação. Sempre com Fajã lá ao fundo acenando-nos em belíssimas vistas lá do alto. Como é belo estoutro lado da ilha, pessoal! Fica o convite, Célia. E Zé Pedro. E os outros - colegas de caminhada em Santiago...
Doem-me as pernas, entretanto, quando volta a minha mente ao quarto nesta manhã quase fria. Minha filha Patrícia dorme ainda. Paro por alguns instantes para lhe rever os contornos da face. Afasto-lhe uma mecha de cabelo dos olhos e sorrio inesperadamente...
No dia 27, Nhô Jõn Miguel e Nhá Titina completaram sessenta anos de casados. Houve festa rija aqui no Planalto de Fajã, como não podia deixar de ser. Com missa do Padre Ima, choros de emoção dos filhos que vieram de propósito, discursos do Miguilim, o filho mais velho, música & danças, o abraço apertado em jeito de parabéns, o pedido discreto a Nhô Jõn para que me ensine o truque. Preciso.
No mesmo dia foi o 98º aniversário da Didita, lá em Chã de Margaridinha. Nesta noite não brigou com Nhá Ilda, como de costume. Sorria, sorria sempre, enquanto o neto Pulitcha lhe rodava num mazurca pelo terraço da casa do filho Corsino. Quase que não lhe sinto mais o corpo quando lhe abraço por entre as lembranças de diazá que me assaltam no preciso momento.
A 29 deste mês teve mais aniversário. Desta vez foi a minha mãe Silva quem fechou a conta dos 74 anos. Dançou com o meu velho ali no corredor (alguns dos filhos e netos ao redor a bater palmas...). Até roubou-lhe um beijo, assim de repente, entre a gargalhada da assistência. Antes do apagar das velas e da primeira fatia de bolo. Antes do contar de estórias ali no corredor defronte. Antes do verso que deixo logo depois no bloco de notas sobre a mesinha de cabeceira, enquanto o sono não vinha...
Crónicas de Fajã 8
Logo à noite será a festa, ali no terraço do Ntone Santos. Enfeitaram a casa toda com ramos de pinheiros e fitas multicolores para a festa do final de ano, e tascaram-lhe poeticamente o nome de “Astro do Amor”, numa placa improvisada pelo Ney de Treza. Vou até fingir arrogantemente que foi tudo preparado por tua causa. Para nós dois: a música, os apitos, as gargalhadas, os foguetes que certamente ecoarão pelo vale à meia noite em ponto, os brados de Boas Festas que ouviremos do Pina, da Bia Tchabéta, do Octávio de Trezinha, do Roberto, do André de Tunkninha, da Nonóia...
Será tudo por tua causa - vou pensar cá com os meus botões. Até o poema que me chegará sem aviso prévio, e que sussurarei devagar no teu ouvido enquanto dançamos com os olhos fechados aqui na noite de Fajã Domingas Bentas...
