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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Caminhada do mês: Pico Leão / Assomada

"Lembras-te Digho
das noites longas de Assomada
feitas Far-West
e dos rios de fodjadas
sob os nossos pés ritmando
de crianças
em loucas correrias verdes?

Todos nós éramos índios
negros brancos e mulatos
todos éramos peles-vermelhas
de escalpes crioulos

Lembras-te, Tchikosa
das noites longas de Assomada
das varandas debruçadas sobre Assomada
e dos pardieiros feitos castelos
Riba kontra Baxu Kutelo kontra Somada
nas noites longas de Assomada?

Todos nós éramos
Nhagar de coração
plenos de Natal
plenos de Assomada"

(...)

in Assomada Nocturna, de José Luís Hopfer Almada

O meu primeiro “contacto” com Assomada deu-se através deste poema, que li tinha aí uns 17 anos. Encantou-me logo a então vila, os kutelos e achadas do poema, que me lembravam os montes e ribeiras da minha ilha, as estórias e aventuras de menino que então adivinhava saltando dos versos do JL directamente para as hortas de cana e bananeira de Nhá Júlia d’Ana lá no meu Fajã Domingas Bentas, via-me ali também no poema mais o Gilson, o Cai de Mari d’Joana, o César e o Jon Bunita também nós nos nossos pardieiros feito castelos de Trouxe as Cartas, Cavaleiro Inglês, Papagaio Louro...

Meu segundo contacto, nove anos depois, foi quando fui tansferido para Santiago em 2002. Tive então a felicidade de cruzar o concelho de Santa Catarina de lés a lés, e (re)visitar todos os lugares de que me falava o poema acima citado. Até pareceu-me que tinha ali o JL a mostrar-me cada um dos lugares da sua infância no Assomada Nocturna!

O terceiro “contacto” a registar, foi sem dúvida neste último domingo. Porque de um outro prisma. Num outro poema, que agora se construiu minuto a minuto, metro a metro, enquanto avançávamos de Pico Leão, galgávamos a rocha íngreme até Achada Mula, cruzávamos este planalto absorvendo em golpadas a brisa suave que descia pela encosta de Pico d’Antónia. A agora cidade de Assomada que se estende de repente a nossos pés, acariciando-nos a alma e o olhar ali do miradouro, depois de cerca de 2 horas de caminhada, o ventinho quase frio contornando o cutelo, a água gelada que nos lava o rosto e a alma na descida de uma hora, as canas que se abrem em flôr de novembro como as da minha ribeira lá longe, a gostosa feijoada da Cozinha da Avó na Assomada em festa para nos saciar a fome, o cansaço e a busca pelo Cabo Verde profundo...

Deixo-vos um cheirinho para completar a descrição. Obrigado, Célia, por mais essa descoberta. Obrigado, Jaiminho, pelas informações. Obrigado a todos os colegas do “Caminheiros Sem Fronteiras”! Até a edição de Dezembro para mais um percurso na ilha...

(Fotos de Paulino Dias)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Próxima caminhada

Aí, pessoal, a caminhada deste mês promete. Depois de amanhã, 25/11, os "Caminheiros Sem Fronteira" vão fazer a trilha Pico Leão / Assomada, passando por Achada Mula, sob a "batuta" do Jaime. Aguardem pelas fotos na próxima semana, ok?

Já no Sábado (amanhã), vou aquecer o motor com outro grupo, percorrendo o vale de Cidade Velha.

Inté, bom final de semana a todos!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Do amor na ilha...

E porque hoje acordei com o teu sorriso na ponta dos meus dedos, deixo-te aqui a crónica que te escrevi há mais de dois anos. Em jeito de catarse, para espantar o frio e a memória...
....................

1. Do amor menino na planta dos meus pés descalços a escrever nas ladeiras do povoado uma canção de gargalhadas e catequese aos domingos. Do amor menino ainda dos meus cinco anos, mais o amor à Dina de Mari d’Jona – vinte anos mais velha e a alvidez do sorriso a esvair-se na retina dos meus olhos como talos de rebuçados. E a infantil angústia de vê-la casar-se com Totone de Nhá Vininha nos idos dos anos oitenta, mais a emigração depois a ciciar-me no ouvido uma canção de despedida...

2. Do amor menino à Gracinda de Ti Djô d’Engrácia, o primeiro beijo que me chega assim na lavada de Borronque sob a cobertura de Trouxe as Cartas, Casamento Inglês e Senhor Barqueiro Deixe-me Passar, que nos envolve o medo e a curiosidade como um rumor lá da Bordeira de Fajã Diante. E o amor adolescente ali na Rua 9 de Ribeira Bote a espreitar da janela um punhado de versos sob os belos olhos de Taty de Nhô Frank no passeio defronte, a angustiante timidez a calar-me na garganta o desespero de tantas madrugadas.

3. Do amor estudante ali na Rua São João Número 34/301 mais a suave brisa do Guanabara a pintar nos nórdicos olhos da Julia Teuber o indício primeiro da minha anunciada loucura, os longos cabelos loiros sobre meu peito d’ilhéu na barca Niterói-Praça XV às três da manhã, e os poemas rasgados de seguida a meio de um gesto enraivecido de dor e distância. E do amor homem depois...

4. Do amor homem da ilha que me atinge assim sem mais nem menos à entrada de Lugar de Guene, às 07h55mn de uma manhã qualquer de fevereiro. E então procurei-te. Nas curvas do vale enlouquecidas de verde-e-branco, na marca de meus passos sobre o tímpano da ilha, num punhado de versos que sepultei logo depois à sombra de uma oração, procurei-te perdidamente na minha loucura como o bálsamo derradeiro da minha inquietação.

5. Bela! Como um poema nas noites calmas de agosto. Bela! O dó-ré-mi de um violão nos meus dedos sobre teu corpo. Bela! Contornos de uma lágrima que te espreita timidamente pelo retrovisor. O tempo em teus olhos, nos teus cabelos feito pássaros em debandada, na minha mão direita sobre teu corpo-ilha, no beijo que pousei em teus lábios como um poema numa manhã de outubro. Construí sobre teu corpo – pedra a pedra gota a gota – um rumor de tantos versos no silêncio das noites incompletas, gos-to-sa-men-te incompletas. E trago ainda na palma da mão o mesmo beijo que te roubei certa vez à porta da minha loucura. Mas mais do que o beijo – caramba! – o olhar.

6. Amo-te. E odeio-te. Perdidamente, como um poema do Neruda. Amo-te. Ou odeio-te. Em mim, esta dúvida na planta dos pés a pisarem pela milésima vez o cascalho da ribeira a teu lado, a Lua a dedilhar nos teus lábios o verso que te fiz ontem de madrugada enquanto o sono não vinha. Entre o amor e o ódio, a raiva e o erotismo em ebulição à flor da pele, a ponta dos dedos no teu rosto sobre meu peito, entre teu olhar de menina e teu beijo de mulher sob meus cabelos crespos enlouquecidos de ternura, amo-te. E odeio-te.

7. Os olhos. O telefone que toca justo a meio de um verso para me dizer ‘m ta gosta d’bô. Os olhos. A menina de uniforme verde-e-branco que vi um dia na estrada poeirenta do vale, verso antecipado dos mil poemas que haveria de escrever – e rasgar de seguida! – na palma da minha mão esquerda. Os olhos. Há qualquer coisa inexplicável e bela por detrás da menina dos teus olhos. Rumores de um mistério, o gesto suspenso na encruzilhada de duas almas, a cidade depois a teus pés no rastro de um navio negreiro, o verso que me entra assim de repente pela janela escancarada...

8. Procuro-te. Também corpo. Também lábios. Sexo arquejante no ranger das horas. Também suor. Também gritos. Gemidos de esperma em noites clandestinas de meus dedos que te buscam! Procuro-te. Desesperadamente procuro-te. Mulher da ilha verso&tambor, sexo louco em madrugadas insones, dor. Dor! Doooor! Procuro-te até à porta da minha loucura (o beijo subtil pousado em teus lábios enquanto dormes, como o vento nas velas caídas de um navio negreiro...). Procuro-te. Agora mulher. Agora pecado. Agora poema. Agora dor!

9. Nas pedras da ilha ficaram para sempre as marcas da nossa loucura, o farfalhar do vento na retina dos teus olhos...


Fajã Domingas Bentas, 2005 - numa noite qualquer de Agosto


("Tentação" - foto de Armanda Com)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Silva de Junzim d´Polina


Não sei, sinceramente, porque te escrevo estas linhas, nesta noite de novembro debruada de estrelas e de silêncios. Não é domingo de manhã, não é Natal nem é Dia das Mães, teu aniversário é apenas a 29 de dezembro... Talvez saudade, talvez solidão, o cálice de grogue no parapeito da varanda desperta o acorde que me invade a noite e o poema. Revejo a tua fotografia na pasta do computador, o timbre da tua voz chega-me inesperadamente como uma velha canção de ninar. Sinto de repente uma falta enorme desta tua voz, do sopro da tua voz no meu ouvido esquerdo contando-me estorias de diazá, enquanto acaricias ternamente os meus cabelos crespos de mundo e de sonhos. Quero voltar a ser criança neste preciso momento. Recostar o meu rosto de ilha no teu regaço ali na bancada à frente da casa e contar as estrelas pela milésima vez à procura da resposta certa, como fazia quando menino, lembras-te? Não pensar. Quero ficar assim perto de ti, nem que seja por um minuto apenas. Não pensar em nada. Sentir tão só o mundo ao teu redor, respirar o mundo, absorver o mundo em matizes de cor e sons pela manhã da ilha, embrenhar-me no mundo como o tal moço doido que fui outrora, à cata de restos de poema e de sonhos nas rugas do teu rosto e nos teus cabelos brancos de ternura.

Deixas, mãezinha? Cheirinho bom de café e cachupa guizada, este que me chega assim de repente numa suave saudade...


(“Silva de Junzim d´Pólina” – foto de Paulino Dias)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Happy birthday to you...

Ontem este meu cantinho intimista completou o primeiro ano de vida. E nem me dei conta, caramba, tão febril e sonhador que estou nestes dias!

Até parece que foi ontem, quando, sob influência de uma amiga minha, decidi rabiscar as primeiras letras nesta tal blogosfera. Dvéra dvéra, o tempo voa na ponta dos dedos quando escrevo, e o ponteiro de relógio não é mais do que uma nota no rodapé do poema...

Um muito obrigado a todos pela vossa visita, pelos vossos comentários e pelos vossos e-mails, ao longo deste primeiro ano. Depois envio um convite para o bolo acima, ok?

Releiam aqui o primeiro post do blog.

Abraços,

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Um telefonema às 07h32mn


O dia acordou hoje abafado e triste. Apetece-me neste preciso momento dar um grandesíssimo grito, e mandar àquela parte – sem dó nem piedade! - os deuses todos desta minha freguesia…

Porquê, Fáia de Totóna, porquê????????????????

Agora que te foste, o que faço com a foto que eu te fiz ali na borda do tanque de Marrador no ano passado, e que diazá estou para te enviar? O que faço com as nossas memórias da escola primária ali com a Professora Bibia de Chiquim, o que faço com a lembrança das tardes percorridas anos depois a caminho do externato de Povoação, do teu peito aberto de menino-moço de meter respeito?

Ahn, Fáia???

Vou tomar um café. Talvez à noite escreva mais um daqueles poeminhas de merda, assim que a raiva se diluir e passear-me pela fronte um tintinho assim de dor e saudade…


(“Amanhecer entristecido” – foto de Paulino Dias)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Um post para a Eury


E por falar em porto, Eury, o teu Porto de Calheta, trazes-me irremediavelmente à memória, neste barulhento entardecer da cidade grande, os rumores dos tanques do meu Fajã distante. Nós não tínhamos o teu mar por perto, Eury. O mar, para nós, resumia-se ao triangulozinho verde-azul invertido que víamos por detrás do Topo de Miranda ali no meio da foto acima, ao barulho das ondas esquebrando violentamente na ourela de Povoação, e que nos seduzia a curiosidade infantil nos domingos de catequese quando íamos à igreja, ao bran-bran de arrastar de botes nos Lajedos de Ponta do Sol, para onde fugia invariavelmente quando acompanhava a minha mãe a esta vila. O cheiro de maresia, Eury, era algo distante e novo, trazido de vez em quando pelos berros da Francisca de Ponta do Sol com a sua tina de cavaaaaaala fréééééééésc, oli cavááááááála! (e nós, moleques, escondidos atrás das moitas de bananeira de Nhô Móne de Quina, a responder quer d´zer ogóóóóóóra!!!!...).
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Mas tínhamos os tanques, Eury. Borrónque, Chã de Henrique, Lima, Marrador, Boca de Patinhas, Pedrene... Sabíamos-lhe de cor a textura, o gosto e a temperatura, quase que lhes sentíamos o cheiro. Sabíamos as veredas, o tempo e a história, sabíamos as horas de "destapá ténque", e os cronogramas de enchimento: já êl tá na primêr férr! Ténq de Marrador tá k 2 pédras d´água! Uabá, ténq de Borrónque tá quase cheio, moço!. Sabíamos também os "mirins d´água", Eury. Seus nomes, suas rotinas, seus estilos. Nhô Djô d´Ingelina, Brito, André de Tunkninha, Roseno, Djô M´leguéta, Nhô Jõn Ntunin, Nhô Mórc... Quem nos deixava nadar nos tanques tranquilos e quem trazia no cinto de três pernas o rigor da proibição (e a adrenalina da fuga quando lá ouvíamos o alerta - oli Nhô Mórc ta beeeem!).
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No verão, a água quasi-morna dos tanques entranhava-nos a alma como uma doce memória, Eury. Vinha gente da Povoação e Ponta do Sol nos passeios de domingo ao interior do vale, vinham caravanas de São Vicente e de outros pontos de Santo Antão, os estudantes em férias na ilha, a manga madura roubada no caminho do tanque que nos lambuzava o rosto, os olhos e a traquinice, as brincadeiras de pánhada dentro de água (o Gilson era o féra nessas panhádas, menos pela sua maestria e mais pelo vigôr como chutava o infeliz que tentasse agarrá-lo ali no fundo do tanque...).
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Porque haverias de me lembrar dos tanques da minha infância justo hoje, ahn Eurídice? Agora ficou a saudade, forte, como uma nota destoante....
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("Tanque de Chã de Henrique" - foto de Paulino Dias)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

E por falar em caminhadas...

... noutras ilhas também se fazem caminhadas, galera! Especialmente na minha, Santo Antão, marcada por uma orografia que nos permite momentos únicos e vistas de tirar o fôlego. Leiam aqui a caminhada do Benvindo, do www.sinta10.blogspot.com
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Benvindo, uma sugestão de trajecto em SA: de Tarrafal de Monte Trigo a Ponta do Sol, passando por Norte, Ribeira da Cruz, Figueiras, Rª Alta, Cruzinha e Fontaínhas. A região mais montanhosa de todo o arquipélago, sem dúvida, com uns pontos de fotografia ímpares. Grau de dificuldade: média. Podes fazê-lo em 5 dias.
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Outro trajecto interessante (este mais curto): Corda/Xoxô, passando por Losnã. Quando nos encontrarmos em Santo Antão, prepare a mochila e a máquina, vamos combinar algumas caminhadas. Sugestão: fazer o percurso inverso ao que fizeste, iniciando em Vila das Pombas, subindo ao longo do vale do Paúl até Cova, e descer no outro lado, em Rabo Curto (Ribeira da Torre), passando ao lado do local onde o avião embateu. Qui tal?
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Célia, fica aqui também o convite/desafio, de levarmos um dia os "Caminheiros Sem Fronteira" de Santiago para Santo Antão, ok?
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Um abraço,

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Caminhada do mês: Ponta Moreia (Tarrafal)

Definitivamente estas ilhas inspiram-me. Os seus recôndidos quase inexplorados, as suas baías levemente articuladas, as suas gentes, a suave brisa que nos espera ao dobrar a curva, o azul sereno do oceano que nos silencia de ternura e calma contemplação, a praia deserta & inesperada que nos acolhe entre um poema e outro... Sim senhor, estas ilhas inspiram-me!
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Na caminhada deste mês, fomos "descobrir" o concelho de Tarrafal, em Santiago. Da Vila à Ponta Moreia, contornando o Monte Graciosa pela esquerda, passando por encostas ligeiramente escarpadas, belos planaltos esverdeados das últimas chuvas, pequenas praias escondidas na ourela fina da ilha, para terminar no farol do ponto mais a norte de Santiago, seguido duma autêntica "aventura" num Toyota Dina no regresso à Vila. A Célia diz-me que esta caminhada bateu o recorde de participantes. E também creio ter sido a mais "multinacional" de sempre: com crioulos de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santiago, Fogo, crioulos da França e crioulos do Senegal, e ainda brasileiros, espanhóis, americanos, ingleses... Valeu, pessoal! Até a próxima...


quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Coisas boas da vida - 2

Esta é espectacular. Não há mau humor que lhe resista:

- "Ouvir a vozita da minha princesinha a dizer-me toda orgulhosa pelo telefone que tirou 20 na primeira prova que fez na escola..."

Ah!, como a vida é bela! Não é pessoal?

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Coisas boas da vida

  1. Nadar na praia de Quebra Canela às 06h da manhã antes de ir ao trabalho…

  2. Assistir ao pôr-do-Sol na Cidade Velha…

  3. Lua cheia na estrada Ribeira Grande / Porto Novo…

  4. Lua cheia na fortaleza da Cidade Velha…

  5. Ouvir Lúcia Cardoso a interpretar “É doce morrer no mar” no leitor do carro esta manhã…

  6. A meiguice da Patrícia, o sorriso da Rea, a simpatia da Lena, os olhos da Aline, a gargalhada do Ilídio, o violão do Calú d´Basila, a ternura da Míria, os poemas da Lili, as anedotas do Ká…

  7. O papo com o Olavo e o Tchindo na varanda da casa no sábado à noite…

  8. Vinho branco de Chã das Caldeiras, grogue de Ribeira da Torre, queijo do Norte, longuiça di Achadinha, pastéis de milho de São Domingos, sucrinha e põn de trança de São Vicente…

  9. Ler poemas do Vinicius em voz alta antes de dormir…

  10. A cachupa guizada do Café Bordalo no Plateau, aos sábados de manhã…

  11. Caminhadas com a galera no interior de Santiago…

  12. Dormir numa tenda na Praia de Tarrafal de Monte Trigo…

  13. Ouvir histórias da Dª Ângela (Dadá), lá em Água de Gato, São Domingos…

  14. Passear na Avenida Marginal em São Vicente com o cheiro do mar nas narinas…

  15. Os licores do Sr. José, na pensão em Fajã d´Água, Brava…

  16. Beber água de côco em Tarrafal de Santiago…

  17. Fotografar rostos da ilha…


    Querem continuar?


    (“Azul” – foto de Paulino Dias)

sábado, 13 de outubro de 2007

Ranking de blogs


Uma surpresa, a posição deste meu cantinho intimista no ranking dos blogs: 44ª posição a nível da África Lusófona, e 9ª a nível de Cabo Verde...

Não sei qual o critério que utilizam, mas de qualquer forma, um muito obrigado a todos vocês, por me permitirem partilhar convosco estas minhas intimidades, em jeito de catarse.

Inté (amanhã é dia de relax na praia de São Francisco...)



("Relax" - foto de Paulino Dias)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Eu, divagações...


1

Endoidece,
esta lua cheia no teu rosto.

E em mim.


2

Tudo estava perfeito:
o verde, a música,
a velha cassete de poemas no toca-fitas do carro,
a tarde e o teu sorriso…

Faz-me feliz o teu sorriso doce.


3

Passeia-me no rosto a brisa nocturna da marginal.
O cheiro é de mar. E poesia.

Penso em ti. Inesperadamente.
Acompanho ao longe as luzes de um navio
que está de partida.
Lembra-me a minha alma, o navio:
também de partida – sempre sempre! –
à tua procura…

Penso em ti.
Com o mar da Laginha nos meus tornozelos.

Penso em ti.
Como um poema…


4

Sabe-me bem
o café depois do jantar.

Toca-se “A mi jam cria ser poeta”
no pequeno palco do restaurante.
Fecho os olhos à procura de sinais no teu rosto.

Bem-me-quer,
mal-me-quer,
bem-me-quer,
mal-me-quer…

Penso em ti.


5

10h e 32 minutos
de um sábado qualquer na ilha.

Mal-me-quer,
mal-me-quer.

Penso em ti.

Mesmo depois da ressaca
e do silêncio que se fez de repente.

“De repente, não mais do que de repente”
- dizia-me o Vinicius no outro lado da mesinha de cabeceira –

Escrevo meu último poema
entre o verde e o aroma de café que sobe da cozinha…


6
Chiça!,
Já não queria
pensar em ti...


(Foto de Nana Sousa Dias)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

DEPOIMENTO



“Chamo-me Paulino Dias. Nasci em Fajã Domingas Bentas, Ribeira da torre, um dos belos vales da ilha de Santo Antão, no seio de uma família bem estruturada, mas humilde. Meu pai era Pedreiro nas FAIMO, minha mãe, analfabeta, sempre teve como única (e fundamental) tarefa, cuidar da casa e dos meninos.
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Estudei o então Ciclo Primário nas escolas de Marrador e de Fajã Domingas Bentas, e em 1986 concluía com êxito o 2º Ano do Ciclo Preparatório (actual 6ª Classe), o nível máximo a que se poderia chegar na altura em Santo Antão, dada a inexistência de Liceus na ilha. Excelente aluno, vi-me contudo numa encruzilhada: ou ia para São Vicente continuar os estudos, ou teria que parar ali no meu 2º Ano e seguir as pisadas do meu pai no lombo da enxada, nesta secular luta dos homens da ilha que teimam em arrancar da terra pedaços de pão feito milagre. Mas estudar em São Vicente custava dinheiro...
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Foi então que outras pessoas fizeram ESCOLHAS em relação a mim, tomaram decisões certas, na hora certa, escolheram estender-me as mãos, cada um à sua maneira, escolhas essas que mudariam radicalmente o rumo da minha vida – para melhor – a partir de então. Desde Nhá Adélia lá na Rua 9 em Ribeira Bote, em cuja casa ficara hospedado, passando pelos meus irmãos mais velhos, o Tio Frank, a Professora Ricardina e tantos outros, até o ICASE e o Governo, de quem recebi bolsas de estudo primeiro em São Vicente, depois para a formação superior no Brasil.
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Hoje, com 31 anos de idade, tenho pendurado na minha sala um diploma de Licenciatura e outro de Pós-Graduação, sigo uma carreira profissional sólida numa das maiores empresas do país (Administrador da IFH), sou Professor de Ensino Superior. Meu horizonte agora é diferente, muito maior e mais vasto do que a vida teria me reservado se eu tivesse ficado ali parado apenas com o meu certificado de ciclo preparatório, sem conseguir realizar o meu sonho de menino que era (e continua a ser) aprender, aprender e aprender. Hoje me considero imensamente feliz, porque vou conseguindo realizar aquele meu sonho.
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Não tenho dúvidas de que grande parte desta mudança de perspectivas deveu-se às pessoas que ESCOLHERAM ajudar-me, no momento certo. Às pessoas que tomaram a decisão de estender as mãos ao meu sonho de menino, acariciando-o e alimentando-o com ternura esses anos todos. Não os posso agradecer, porque por mais que lhes dirigissem palavras bonitas ou gestos de nobreza, nunca seriam suficientes para retribuir a mudança que operaram no meu horizonte de menino da ilha. Não senhor, nenhuma palavra seria suficiente...
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Não os posso agradecer. Mas posso lhes copiar o gesto. Posso – também eu! – FAZER ESCOLHAS, tomar decisões, estender as mãos aos sonhos de outros meninos como eu fui outrora. Posso ESCOLHER pagar uma rodada de cerveja à malta na Sexta-feira à noite para comprar seu respeito e admiração, ou posso oferecer um almoço àquela senhora idosa que vem todos os Sábados de manhã arrastar pelas ruas do Plateau seu corpo carcomido de velhice e miséria. Posso ESCOLHER comprar mais uma camisa de marca para enriquecer meu guarda-roupa e minha vaidade ou posso oferecer aquela t-shirt de Homem-Aranha ao puto que me estende as mãos pedindo alguns tostões ali na porta do escritório, só para lhe ver o sorriso. Posso ESCOLHER olhar para o lado e fingir que tudo ao redor é um mar de rosas, ou assumir que podemos ajudar – mesmo com pouco – a construir um mundo melhor à nossa volta.
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A vida é feita de escolhas. E do fruto que colhemos das escolhas que fazemos. Eu fiz uma escolha, para copiar o gesto às tais pessoas que fizeram as escolhas certas na hora certa, mudando para melhor a minha vida. Escolhi também dar a minha modesta contribuição para que os sonhos de outros meninos possam se realizar, para que outros horizontes possam se abrir para eles, para que também amanhã possam pendurar diplomas pelas paredes e quem sabe sejam chamados de Sr. Doutor. Desde Agosto de 2006, sou Padrinho do Anderson, um puto de 13 anos da Aldeia SOS de Ribeirão Chiqueiro. Não me custa nada. É apenas um pequeno gesto. E a satisfação de saber que fiz a ESCOLHA CORRECTA.
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Faça também a sua ESCOLHA. Ajude a concretizar sonhos. Ajude a mudar vidas. Ajude a abrir outros horizontes. Claro que podes ESCOLHER deixar para amanhã aquele telefonema à Aldeia SOS para apadrinhar uma criança, podes deixar para a Segunda-feira da semana que vem quando terás mais tempo para tratar disso, podes ESCOLHER esperar até que o miúdo da porta do escritório se afogue na droga e na bebida, e a velha esfarrapada das ruas do Plateau exale o último suspiro (“coitada, era uma velhinha tão simpática...”). A ESCOLHA é sua.
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Faça a ESCOLHA CORRECTA. Agora.
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Paulino Dias,
Padrinho da Aldeia Infantil SOS de Ribeirão Chiqueiro.”
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P.S. – para contactar a Aldeia SOS: +238 2647379


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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Santiago ê bunitoooo!!!!

Aí, pessoal, algumas fotos da última caminhada dos "Caminheiros Sem Fronteiras", no passado domingo. De São Domingos a Jaracunda (perto de Pedra Badejo), passando por Mendes Faleiro, Ribeirão Cal, Barragem de Poilão e Ribeira Seca. Caramba!, esta ilha está muito bonita, pá! Verde verde verde, até a medula dos ossos...
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Descubrem Santiago, pessoal, descubrem-na! Vão ver que é muito mais do que esta imagem de lixo, black-out, falta de água, etc., que nos enfiam goela baixo...







terça-feira, 25 de setembro de 2007

Um post para a minha filha, no primeiro dia de aula


Ontem foi teu primeiro dia de aula, minha princesinha distante. E nem pude estar lá para te segurar as mãozitas que pressenti acanhadas pelo telefone, no be-a-bá deste primeiro dia...
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Eu poderia te dar mil e uma desculpas: o trabalho, a distância, a greve na TACV, o mar revolto no canal, a falta de tempo... Em vez disso, e para me penitenciar, escrevo-te este post que vou imprimir e guardar carinhosamente até que aprendas a lê-lo por ti mesma. Sabes, ainda tenho fresca na memória o meu primeiro dia de aula: o friozinho daquela manhã também de setembro, os olhos bondosos da professora Bibia de Chiquim esperando-nos lá na velha escola coberta de palha, a ansiedade, um quê de descoberta que nos entranha a alma.
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Sobretudo a descoberta. A escola mostra-nos caminhos novos, minha filha. Outros mundos, outros sentidos das coisas, amplia nossos horizontes para lá das montanhas e do mar que nos cercam. A escola - enquanto espaço de educação e fonte de conhecimento - molda-nos também como seres humanos, porque melhora a nossa capacidade de FAZER ESCOLHAS. Vais aprender, minha filha, que tudo na vida acaba por ser resultado das escolhas que fazes, desde as coisinhas simples do dia-a-dia às grandes decisões que te esperam quando cresceres. E para fazeres boas escolhas, é necessário o conhecimento, a formação humana, os valores e os princípios que procuramos - nós, a família, a professora, os vizinhos - cultivar em ti.
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Não há nada mais belo do que a liberdade, minha filha. Sobretudo a liberdade de pensamento e de raciocínio, que a escola nos estimula. Liberdade de ter as tuas próprias opiniões - respeitando sempre sempre sempre as dos outros -, liberdade de fazer os teus próprios juízos de valor, de ter a tua própria percepção das coisas, de fazer as tuas escolhas, liberdade até de apreender e determinar os nossos próprios limites em função da liberdade do outro. Infelizmente, filha, esta é uma liberdade cada vez mais rara e difícil de cultivar, porque todos os dias somos severamente bombardeados com uma quantidade enorme de informações com o único objectivo de influenciar o sentido das nossas escolhas: a cor da roupa que deves usar, o tipo de pão que deves comer de manhã, se desves ou não gostar do Presidente dos EUA... A informação, que devia educar, é usada assim para cercear o bem mais precioso que nós temos, filha: a liberdade.
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A escola, Patrícia, ajuda-nos a conservar e reforçar esta liberdade, através da promoção do nosso desenvolvimento pessoal e intelectual. O conhecimento liberta. E ao mesmo tempo dá-nos a consciência da nossa verdadeira dimensão no universo a que pertencemos, tornando-nos assim mais humildes, mais tolerantes, mais respeitadores das pessoas e das coisas que nos cercam. A sede de conhecimento, logo que se lhe pega o gosto, nunca mais se esgota, vais ver. A boa notícia é que não cansa e dá imenso prazer!
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Meus parabéns pelo teu primeiro dia de aula, filha. E que nunca nunca deixes de cultivar a tal LIBERDADE DE PENSAMENTO a que eu referi atrás.
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Do teu pai, com saudades,


("Patrícia" - foto de Paulino Dias)


terça-feira, 18 de setembro de 2007

Hás-de saber porquê escrevo

Hás-de saber porquê deste post enverdecido. Desta fotografia da minha ilha com cheiro a terra molhada e fiapos de nuvens pendurados nas rochas de Pinhão e Rabo Curto lá ao fundo. A casa de Nhá Jóna de Rosa no lado esquerdo, com o quarto do Jõn Bunita recém construído no terraço, a rocha de Biquim perfilando-se qual sentinela dos teus meus sonhos, o coqueiro de Ti Djô d´Engrácia onde eu e o falecido César costumávamos fanar cocos quando miúdos. Lembras-te? No entanto, nem era julho ainda, e a chuva era tão só uma promessa no calendário das às-águas.
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Hás-de saber porque te escrevo nesta tarde amorfa de setembro...
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("Sentinela dos teus meus sonhos" - Fajã Domingas Bentas, fotografia de Paulino Dias)
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sábado, 15 de setembro de 2007

Rostos da Ilha - 3

Hoje acordei com terríveis saudades tuas, minha princesinha distante. Dói-me a noite mal dormida. E o imenso vazio: no apartamento, no quarto, e em mim.

Quis ao menos por um minuto aconchegar-te com ternura no meu peito e dizer-te o quanto me fazes bem, mesmo sem o saberes...


("Olhar" - foto de Paulino Dias)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Uma noite de insónia (conto)

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Já não aguento mais a porcaria deste ventilador no meu ouvido vruuuum vruuuum vruuuum. Caramba! Levanto-me de um pulo e arranco a ficha da tomada eléctrica sem sequer me dar ao trabalho de o desligar primeiro. Volto a atirar o corpo para cima da cama como um saco de batatas. Estou exausto. De insónia e de ti. Melhor: da lembrança tua. Sustenho a respiração por dois segundos para sentir a suave carícia do silêncio no quarto. A paz que desce sobre mim é aconchegante como o teu abraço pressentido. Meus lábios esboçam um leve sorriso de encantamento – vejo-te pela primeira vez na esquina do Café Sofia no Plateau, uma segunda vez num domingo qualquer na praia de Quebra Canela, e uma terceira vez quando nos encontramos casualmente ali no Sovaco de Cobra numa Sexta-feira à noite e em jeito atrevido te pedi o número do teu telemóvel. Deste-mo.
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Os quadros se intercalam como num filme em câmera-lenta. Passa um carro na madrugada da rua defronte. Instintivamente olho as horas no despertador da mesinha de cabeceira, são duas e dezassete minutos da madrugada. Penso em ti. O verso percorre a minha pele como um arrepio gostoso, de mãos dadas com o pecado e a curvatura dos teus lábios. O calor volta a invadir-me irremediavelmente a alma e a memória. Condensa-se em gotículas de suor que escorrem em direcção ao lençol amarrotado. Viro-me na cama irrequieto. Busco o conforto e o teu corpo. O teu rosto. Os teus olhos.
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Acendo a luz e envio-te um SMS às duas e trinta e nove minutos da madrugada. Sei que vou acordar-te mas delicio-me sadicamente com a tua imagem a abrir os olhos sobressaltada com o sinal de mensagem recebida, o teu corpo a revirar-se na cama para pegar o telemóvel na mesinha de cabeceira. Quase que sinto tua raiva primeiro – quem ê êss filho-da-mãe dêss hora, chiça! Mas o poema te enternece e por entre a raiva e a réstia de sono esboças um pequeno sorriso que me chega até o quarto no outro lado da cidade.
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Volto a ligar o ventilador made in China - já não aguento o calor, porra! Um mosquito vem aos poucos partilhar comigo o fardo desta insónia. Lembro-me que tenho de me levantar às sete da manhã para ir à vida e quase que entro em pânico. Tens que dormir, moço! Fecho os olhos para forçar o sono mas és tu que me abraças entre o calor e estoutro poema. No meu íntimo fico à espera de uma qualquer resposta tua, seguro o telemóvel por alguns minutos na ansiedade do toque que me anunciará tua palavra ou tua voz. Vruuuum vruuuum vruuuum. Não, não é esta a tua voz no outro lado da porta. Ou será do telefone? Já nem sei mais. Teus lábios se diluem gradativamente por entre a realidade e o sonho. Aos poucos vai-se esfumando na noite o barulho do ventilador. Já não sinto. Sonho talvez e nem sei. Liberto-me. Da insónia, do cansaço, do dia longo. Liberto-me. Para ti. Consigo até ver o meu corpo que abandono em posição fetal sobre o lençol amarrotado. Liberto-me para longe nesta minha eterna ânsia de partir. Sinto-me a adormecer lentamente…
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Triiim! Triiim! Triiim! Acordo sobressaltado com o vibrar do telemóvel em cima da mesinha. É ela, certamente, moço! É ela! O coração aos pulos. Tum tum tum. O teu rosto outra vez. Os teus lábios que pressinto acariciando o outro lado da linha. A ansiedade na ponta dos meus dedos. É ela, caramba! – quase que grito no silêncio do quarto. Nem sequer me dou ao trabalho de confirmar o número no visor. Alôô… faço uma voz ligeiramente sensual para te provocar. Silêncio. Alôôôô….
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“- Alô! Ê di squadra de pulícia de Palmarejo?”
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Era engano.
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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Desabafo


Carrego comigo esta irremediável ânsia de partir. De me libertar das amarras e voar como um pássaro. Flutuar sobre o tempo, a memória, e o gesto interrompido. Esvaziar-me. Como um moço doido.
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Estive sempre de partida. Estarei sempre de partida. A partida em mim é uma constante como um poema inacabado. Estou em todos os lugares e não sou de lugar nenhum. Vôo, simplesmente. Irremediavelmente.
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("Groguinha - o vôo do anjo", fotos de Paulino Dias)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Verde!


Telefonou-me o meu irmão Naiss esta manhã, a dar-me conta das primeiras chuvas lá na ilha. E a dizer-me da belíssima fotografia que tinha feito lá em Chochô, um dos recantos mais belos deste país. Lembrei-me então de uma antiga crônica que fizera há algum tempo, e que agora partilho convosco. Era fevereiro e estava de visita à ilha...


VERDE!

Às portas deste fevereiro de Nossenhôr que nos guarda, a ilha enche-nos os olhos e a alma de verde, verde, verde. Muito verde. Verde até a espinha dorsal das gargalhadas a perder de vista e a calma invasão das acácias na planta dos meus pés descalços. Verde claro + verde escuro metamorfoseando-se na retina daqueles olhos, que tentam em vão abarcar a imensidão angustiante das trepadeiras na Cinta de Riba abandonada. Verde e branco, flor e cana bourbon, grogue e fretcha e nervos de trapiche subindo co-re-o-gra-fi-ca-men-te em direção ao verdeazul que nos espreita. Verde no assobio alegre de Junzin d’Pólina no terraço da nossa casa lá em Fajã Diante. Verde-esperança nas enxadas desencalhadas e nos pés de feijão-ervilha coentro e batata inglesa galgando as encostas de Pedregal.

Também verde o sorriso aberto de Djô M’léguéta e sua faca cruzada na cintura numa bainha de pele de cabra, às nove da manhã e já subindo a vereda de Lombinho com um pequeno saco de feijão às costas. No Terreiro, gargalhadas solidariamente verdes do Peléla, Jôn Bunita, Pina, Nã, Roseno, construindo mais uma casa-de-banho oferta da Associação dos Moradores da comunidade, desta vez para a Tunkninha de Nhá Mari’Senhorinha. Verde na fotografia da Cláudia de Mari d’Pritim roubada num instante apenas em que ela se descuida, os belos olhos menina & moça angelicamente espantados no lado oposto da objetiva. E o subtil encanto da minha filha Patrícia que corre para os meus braços no portão da nossa casa, o verde estampado infantilmente nas suas mãozinhas estendidas e na pequena borboleta de plástico que lhe prende os cabelos...

No assento dianteiro do hiace do Catchupa que me leva de volta a Porto Novo, mais verde. Na curva de Nhá Jóna David, nas ladeiras de Cruz, nas contracurvas ao largo da casa de Nhô Menél Jôn e nas chãs embriagadas de verde ali em Estraga, nas bordeiras do Delgadinho onde a vertigem dos precipícios nos espreita nos lados direito e esquerdo das nossas ilhargas, nos ramos de macieiras roçando as janelas do carro ao passarmos por Corda e pelas memórias dos sacos de marmelos da minha infância, com meus primos Gilson e Dinora e nevoeiro e boleia na carroçaria de um camião carregado de pedra-de-calçada, e chuva miudinha encharcando-nos de frio até ao desespero... Verde nos pinheiros tresandando a Europa ali mesmo em Água das Caldeiras e na borda do nosso orgulho crioulo. Verde até nos campos entristecidos de Porto Novo e na voz profunda do Ildo Lobo que irrompe de repente dos pequenos altifalantes do carro para nos devolver o silêncio de tantas secas, na alto cutelo cimbrôn já cá tem... Mas aqui neste cutelo, Ildo, vai ter feijão, batata, cebola, abóbora, cana, banana, ânsias renovadas, gargalhadas de todos os tipos, com bisca & grogue ao cair da tarde, o relembrar de tempos d’outrora, e o canhoto saltitando alegremente de um canto a outro da boca desdentada já. As raízes esticadas hão de encontrar água nos braços ilhéus das enxadas de Juquim de Jóna Chica, Djô M´leguéta, Péd Palinha, Ti M´guêl T´reza....

Se Deus assim quiser – diria certamente Ti Jôn d’Bléca....
(Fotografia tirada daqui)

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Caminhando descobrindo descobrindo-se...






Recebi este poema do Francisco Weyl, o Carpinteiro de Poesia e do Cinema, a propósito das fotos que lhe enviei, da última andança dos "Caminheiros Sem Fronteiras", entre Rincon e Ribeira da Barca aqui em Santiago no dia 26 de Agosto último, passando pelas belíssimas localidades de Águas Belas e Achada Leite.

Valeu, Francisco!!! E boa estadia lá em Belém do Pará - estamos à tua espera para mais noites de poesia cá na Praia, ó Carpinteiro!

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Mas por que é que as pessoas caminham,
perguntou este àquele um,
logo, um longo silêncio abraçou-lhes.

Este um indagado, indaga-se a si próprio
na sua essência e pensa
que jamais conseguirá obter a resposta.

Nem mesmo em seu coração,
pelo que torna-se desde já um homem de pedra.

Aquele outro indagador provoca-se e projecta-se
neste outro que não lhe responde.

Assim, estes dois, mudos com a sua própria consciência.

Mas, estes que caminham,
estes que os vemos a caminhar,
por que seguem eles por estas estradas?

Por entre estas vias tortuosos, sinuosos, a subir, descer,
ora acelerados, ora em ritmo lento,
cada um deles ensimesmado,
fazendo do seu caminho a metáfora de suas próprias vidas.

Caminhamos todos, caminham estes questionadores
e estes sem respostas.

Caminhamos por estas respostas que nos surpreendem
e que nos revelam, mas que não nos expõem,
pois o que buscamos está dentro de cada um de nós.

Vejo estas fotos, meu caro Paulino,
não do outro lado do oceano,
mas dentro de meu próprio oceano,
com estes olhos de Machado (de Assis):
mareados.

Olhos de lágrimas e de recordos, contraditoriamente, alegres,
destes caminhos que trilhamos enquanto seres humanos
nestas terras que vislumbramos para além desta Terra que habitamos.

Caminhamos uns ao lado dos outros, companheiro Paulino,
mas no fundo sabemos que nosso caminho a gente faz sozinho,
pois que a solidão da morte é o único destino.

Esta morte tão esperada,
esta morte, anunciada, aceitamo-la
neste caminho da vida.

Esta vida construída a cada passo, juntado,
a cada paso, dado,
a cada passo disparado.

Estes passos ofertados em comunhão de irmãos,
de mãos e braços, abraçados,
corpos, rotos, robustos, refeitos deste jeito que sabemos ser,
neste ser que somos enquanto andamos.

Caminho convosco, mesmo sozinho em meu destino.
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(Obrigado pelas fotos, vê-las faz-me sentir dentro delas.)
-- FRANCISCO WEYLCarpinteiro de Poesia e de Cinema

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Ausência


"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces,
porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto..."

(...)

Vinícius de Morais, in Ausência


("Meia-face" - foto de Paulino Dias)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Energia atómica em Cabo Verde?

O problema: a fragilidade de Cabo Verde no que diz respeito ao fornecimento de energia, factor essencial ao desenvolvimento, devido: 1) à natureza da nossa matriz energética actual (assente no petróleo), que nos deixa extremamente vulnerável à flutuação dos preços deste produto no mercado externo; 2) ao sucateamento e ineficiência do nosso parque de produção (digo, Electra...), que se reflecte no preço e na instabilidade do fornecimento; 3) ao facto de estarmos espalhados em ilhas, o que cria problemas de multiplicação de custos logísticos.

O debate:
a) De um lado, os que começam a defender a energia atómica como uma solução eficiente (melhor relação custo/benefício) para Cabo Verde;
b) De outro lado, os que são contra, dado aos riscos que esta solução apresenta;
c) Ainda numa faixa intermédia (ou justificando a opcção b), os que defendem a exploração de energias renováveis.

Este debate é pertinente e interessa-nos a todos. A nós e aos nossos filhos e netos. E você, o que pensa sobre isso?

terça-feira, 21 de agosto de 2007

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Janelas para quê?


Janelas para quê

se do outro lado da ponte

apenas a terra crã da ilha

no poema azul dos meus olhos?
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("Janelas para quê" - foto de Paulino Dias, casa no Norte, Santo Antão)


sábado, 11 de agosto de 2007

A Vingança (Conto)

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A noite fazia-se puta nos braços erectos das montanhas ao redor. Aqui e ali, grilos entoavam ao mundo sua fome de existir, o vento morno de Agosto segredava nos cabos de telefone ao lado da casa minha ambição de poesia. Sobre a mesa da escrivaninha o computador ali tã à espera da estória que não me vem, caramba!, a folha em branco, o tédio, e o tempo suspenso na frase por concluir.
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Desperta-me de repente o zunido do telemóvel no bolso da minha calça jeans. Milú de Nhô Pidrim d’Clemente. Milú, colega de infância nas ladeiras da ilha, Milú, bela como um verso inesperado, Milú, no beijo roubado ali à sombra do pé de fruta-pão de Nhô Léla d’Póla, o coração kutrum kutrum que nem panela de pápa ta rompê férva, e o adeus depois na curva da estrada a caminho d’Holanda, para se casar com o moço bonito de sorriso fácil e pescoço debruado de cordões de ouro.
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Milú, m’nina, há quanto tempo não tenho notícias, tuas, que é feito de ti, Milú!, como tens passado lá na strangêr? Nem percebi que o número no visor indicava São Vicente... A voz soou-me estranhamente calma ao telefone. Uma tonalidade metálica do outro lado da linha parecia rasgar o silêncio que se fazia sentir entre uma palavra e outra, entre uma sílaba e o clímax que se pressentia em mais uma história dessas ilhas. A história, o clímax, a voz metálica, uma mulher ferida de morte. Traída no mais íntimo das suas convicções, da sua inocência drasticamente perdida.
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Só queria conversar, diz-me. Precisava. Antes do gesto planeado até aos mais íntimos detalhes, milimetricamente revisto nos últimos três anos e quatro meses de tchõn de Sóncent. É, moço, Soncent. Nunca pûs os pés na Holanda. O sonho de embarcar ficou-me ali mesmo na esquina da Rua 9, no guetô cheirando a sexo, perfume barato e pontche máfe, com musiquinhas da Roberta Miranda e pósters da Cindy Crawford nas paredes, a cama de casal onde o desgraçado levou-me os três vinténs e a minha inocência. Regressou à Holanda uma semana depois para enviar-me os papéis e a aliança, as lágrimas de saudade que lhe vi rosto abaixo na despedida – juro, moço, juro que eu vi! – calcaram em mim a certeza de que breve breve desembarcaria na tchôn d’Holanda. Qual tchôn d’Holanda, moço, tchôn de gaita!, os dias foram passando, as semanas e os meses foram desfilando ante minha angústia crescente, o telefone mudo ao lado da mesinha, mas sobretudo o silêncio. Os dias foram passando, moço, e nem f’maça de papel pá Holanda. Aqui estou eu agora, a vender cavala e melõn pelas ruas de Soncent e a morar num quartinho alugado por três conto e quinhentos em Ribeirinha. Com vergonha de regressar à ilha, ao meu mundo, à minha gente, ao meu sossego...
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Agora soube que ele chega amanhã à tarde, moço. Com a mulher e os dois filhos. Diz-me, tem um lugar para mim depois de amanhã lá na ilha, para adormecer no teu ombro esquerdo? Desligou.
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No dia seguinte, no jornal da noite ecoando do meu radinho a pilhas, a voz do jornalista pareceu-me algo divertida no meio da notícia: um emigrante recém-chegado à terra, para assistir ao festival da Baía das Gatas junto com a família, tinha entrado todo esbaforido no banco de urgência do Hospital Baptista de Sousa a berrar desesperado bocês tchmá Dotôr, bocês tchmá Dotôr pá bem costuráme êsse côsa, óh Deus!, bocês tchamá’l pa bem coláme êl! – e mostrava o seu pirilau embrulhado numa bolsa de plástico, cortado rente aos testículos com uma faca de escamar peixe...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Demónios e outras coisas


Todos nós trazemos à trela os nossos demónios, as nossas angústias, os nossos medos...
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("Auto-retrato dos meus demónios" - foto de Paulino Dias)



quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Rostos da Ilha - 2

Há dias, ao ler uma notícia sobre torneio de futebol em Ribeira da Torre (Santo Antão), veio-me à memória os domingos de futebol da minha infância nos campos de Marrador, Chã de Margaridinha e Lugar de Guene, com os moços do Salta, Onze Unidos, Benfiquinha, Montanha, etc. E fui lá cavar então esta fotografia do Salta nos idos dos anos 80 (o Pina ainda não era careca, e o Vavá de Quinita ainda conservava a sua elegante fidalguia...). Para matar saudades.
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De pé, da esquerda para a direita: Vavá de Quinita, Pina de nhá Vininha, Osvaldo (??), Pi de nhá Vininha, Badiu, Kuntuna, Liomba de Dinha Arcângela, e o guarda-redes Conga.
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Agachado, da esquerda para a direita: Djô de Guida, Tony de Georgina, Tony de Guida, Fafú, e Octávio de Tresinha.
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Destes, o Pina, o Pi e o Octávio ainda "militam" no Salta (nem a idade lhes faz pendurar as botas!!!). O Badiu, o Conga, o Kuntuna, emigraram para Luxemburo, Portugal e Holanda, se não estou em erro, o Tony de Georgina e o Djô de Guida se não me enganam ainda jogam no Varzim F.C., e o então cabeludo Tony de Guida, com a bola à frente - adivinhem! - é hoje o "simpático careca" que dirige o INE (Dr. António Duarte). Além de bom de bola, bom de números também, hein!
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segunda-feira, 23 de julho de 2007

Cidade Velha


Há duas semanas fui participar na cerimônia de colocação de fitas da minha filha Patrícia, finalista do Jardim - como o tempo voa, caramba! No final da tarde, levei-a junto com as coleguinhas para um passeio de carro na estrada do vale de Ribeira Grande, todas vestidas com o mesmo uniforme azul-e-branco e a gargalhada pura (de quem ainda não perdeu a inocência...), enquanto entoavam o Hino Nacional, uma das suas "músicas" preferidas. Lembrei-me de uma crónica que escrevi há alguns meses, quando ela esteve comigo na Praia para uns dias de férias, depois de um passeio à Cidade Velha. Resolvi partilhar convosco, em nome da beleza das coisas e dos momentos simples...

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CIDADE VELHA
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“Canta, irmão, canta meu irmão...” irrompe-me a voz infantil da minha filha no banco traseiro do carro neste entardecer de Maio, enquanto rodamos pela estrada a caminho de Cidade Velha, o mar no nosso lado esquerdo e o sol à nossa frente a descambar pelos lados do vulcão de Fogo no outro lado do canal, num belíssimo quadro que desafia meu daltonismo em paletas vermelho-laranja envolvendo a linha do horizonte. Diz-me a minha filha empolgada que é a música que irão cantar dentro de dias na festa de finalista do seu jardim, e continua, agora com uma entoação que me soube a patriotismo neste meu orgulho de pai, “...que a liberdade é hino, e o homem a certeza...”.
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Aguarda-nos, ao dobrar a última curva, a fortaleza da Cidade Velha com suas paredes de séculos, seus canhões d´El Rei, suas guaritas, seus fantasmas de escravos e soldados do reino espreitando pelas esquinas do tempo. Aguarda-nos o mar lá ao fundo – tonalidades de azul claro e azul escuro beijando em espumas brancas as costas da ilha – o mesmo mar por onde chegaram as naus do achamento e os navios negreiros de velas enfunadas (a alma da minha avó escrava amarrada no fundo dos porões...), raças e navios amalgamados na encruzilhada do tempo e da história, aqui!, onde agora um pequeno bote baloiça suavemente para espantar o tédio das horas mortas.
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Há história e estórias por detrás destes muros da fortaleza. Há história que nos envolve entre as pedras dos miradouros (adivinho espuma de caravelas e bandeira de piratas ao vento no mar ao redor, em direção a outros destinos e outros saques, deixando para trás como testemunho, as ruínas da catedral que vejo agora lá em baixo e a sola dos pés dos meus antepassados em correria louca para o outro lado da ilha). Há história adormecendo nos porões das caravelas naufragadas no mar defronte, em formatos de cerâmica, moedas de cobre e trejeitos de espanto e agonia, e há estórias sob as lápides de mármore do século XVII na igreja remodelada, gentes das ilhas que escreveram outrora na areia negra da praia esta história agora de todos nós.
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“Com dignidade, enterra a semente...”. Continua ainda a minha filha. Da ferrugem dos canhões e do tempo, em simbiose com o azul do mar e os meus cabelos crespos, ergue-se subtilmente a voz de um poema – silencioso, e diria até que triste – vozes de achamento na proa dos navios, vozes dos capitães donatários que aportaram a estas ilhas, vozes de piratas desembarcando na praia defronte sua fome de ouro e almas negras, vozes amordaçadas de chicote no pelourinho da cidade, vozes d´Europa gemendo impudicamente na voz fêmea d´África, nação e povo em construção na voz mulata sobre o pó destas ilhas. Voz agora, na voz-menina que me canta no banco traseiro que a esperança é do tamanho do mar que nos abraça...
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(Vozes que me chegam do pelourinho onde trocaram por moedas de prata e quinquilharias, as mãos, o sangue, o ventre e os músculos da minha avó escrava – mas não a alma!, que esta ficou entranhada nestes cutelos em insubmissos ecos de tabanca e tambor!).
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("Aqui d´El Rei" - fotografia de Paulino Dias)

quarta-feira, 4 de julho de 2007

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Um post para Francisco Weyl


Caro Francisco,
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Para te dizer que a noite de ontem foi mágica, ali no Kasa Bela. Bebia-se sôfregamente poesia pura nas palavras suspensas no silêncio, em taças de cristal feito voz & música, e até na lua cheia que - descarada! - teimava em espreitar por entre os telhados e as parabólicas do Plateau, mesmo quando a noite dobrava já as doze badaladas. Eu, por cá, fico à espera de mais. Muito mais. Empaturrar-me de poesia até arrebentarem-se os botões do meu paletó de burocrata. Não pensar, como nos pediu o William. Sentir apenas. Não medir as rimas, estar-se nas favas para a métrica e os versos decassílabos, mandar à merda os pseudo-críticos de plantão. Sentir apenas. Sentir, Francisco! Sentir as coisas ao redor, sentir o olhar do puto ali na esquina, sentir o silêncio e a voz... Sentir, como ontem à noite ali no Kasa Bela.
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E ontem, antes de me enfiar na cama, ainda fui vasculhar um velho poema (sem nome) que aqui te deixo:
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À tardinha
quando acena-me o Sol – diria até que triste – ali da bordeira da Cidadela
.......sento-me à soleira da minha porta
...............à sombra da minha angústia de ontem e de hoje
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e calmamente
com ternura quase
com magestade
...........- como um Rei, dá-me ganas de dizer! –
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mando à merda a monotonia do relógio
no edifício da Câmara Municipal...
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E nem ouse o Sacristão da minha freguesia
vir dar-me lições de moral, caramba!
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(Luzes sobre a cidade - foto de Paulino Dias)

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Solid as a Rock


Fui a coisa.
........ E o orgasmo planeado até ao detalhe.

Fui tempo adormecendo na noite solitária
........................ sobre meu peito, fui poema.
...............................................................E catarse.
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A mão direita
no seio erecto da poesia - pele tão só! -
...............e depois o bater da porta na madrugada...
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("Solid as a Rock" - fotografia de Nana Sousa Dias)

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Espectáculo Ney Évora

Finalmente, vamos ter o Ney Évora com o seu violino cá na Praia! Já não era sem tempo, pô!!!
E ainda com a participação do Djosinha e muitos outros!

Data: este Sábado, 09/06/2007
Local: Auditório Nacional, às 22h00
Bilhete: 500$00
Onde comprar: O Cometa, O Poeta, Café Sofia, Palácio de Cultura

Assistam, pessoal!, não vão se arrepender...

quarta-feira, 30 de maio de 2007

AS ÚLTIMAS 24hs NA VIDA DE UM SUICIDA (Conto - II)

Como tinha prometido...

2ª Parte
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Tem aquela outra em que uma voz esganiçada berra-nos ao ouvido durante 4 minutos e 23 segundos que se o seu “amor” não voltar para ela, vai morrer.... Coitada! Óh menina, se amor matasse assim, dois terços da humanidade batia as botas antes dos vinte e cinco anos. Afinal tem sempre aquela história de fulano que gosta de beltrana que gosta de sicrano, e aí ficava uma confusão dos diabos se todos resolvessem “morrer de amor”, não acha? Ninguém morre de amor, que fique bem claro. Não por essas bandas. Aliás, quase que fui o primeiro a conseguir esta suprema proeza, quando andava à procura de uma razão plausível para me matar. Afinal, “porquê?” é a primeira pergunta que nos assalta quando alguém se mata. José bebeu lixívia? Porquê, comadre, problema de dívidas? Maria pulou do terraço? Porquê será, hein? Vai ver que o Djondjôn pegou-a naquela sua sem-vergonhice com o Dr. Sousa... Povinho curioso este nosso, caramba, que um cidadão já não pode dar cabo do próprio canastro sem que venham com especulações! Decidi que meu suicídio seria por causa de amor. Assim, sublime e poético que nem um daqueles romances do ultra-romantismo português que o Professor Hermenegildo Costa lia para nós ali no Liceu. Escreveria uma carta de despedida que seria meu derradeiro poema, debruada de declarações de amor impossível, olhares de rubis, sorrisos de lua cheia, beijos que adivinhava com sabor a mel de abelha e chocolate, mãos de deusa que sonhava percorrendo a minha pele nas noites insones em que por ti eu suspirava, óh minha amada! E então pûs-me sôfregamente à procura da mulher por quem me mataria.
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A primeira escolhida foi a Maitê Proença, a actriz bela como um anjo de Abril que aparece na novela das oito, toda dengosa e com uns olhos, meu Deus, de fazer um cristão perder o juízo mesmo. Que é isso, rapaz, matar-se por estrela de televisão? Que coisa sem criatividade, hein! Desisti da Maitê. Melhor que seja uma das redondezas mesmo, para causar mais impacto. Pensei na Carlinha, a filha codê do Sr. Jesualdo lá da outra rua. Linda, um andar provocante sacudindo dois pares de mamas que mais parecem talhadas pelo Criador, o sorriso sempre com um quê de sacana e trocista que espalha pelas ruas da cidade. E como gosta de provocar-me, esta filha de Belzebu!, depois que lhe deixei bem claro que tenho ganas de lhe subir na mangueira. Só se fôr noutra encarnação, fofinho. Puta! Melhor deixar prá lá porque vaidosa como ela é, é bem capaz de colocar o meu suicídio no seu currículum, e aí é que ninguém mais pode com ela. Até já estou a ver a coisa: “muito prazer, moço, meu nome é Carlinha, éééé, aquela mesma por quem o Sr. Francisco deu um tiro nos miolos...”. Abaixo a opcção Carlinha. Já sei! A Dra. Gertrudes, a cota boazuda directora do meu departamento, porquê não pensei nela antes? Não que seja aquele pedaço de mau caminho, mas sempre tive um fraquinho pela sua inteligência e firmeza como conduz as coisas lá na empresa, parece uma máquina de tomar decisões, racionalíssima e tal, que não gosta lá muita dessas frescuras de namorar, beijinhos, mãos agarradas... Hum, também não sei, ainda era capaz de ficar irritada com o meu gesto sublime, chamando-o de irracional, idiota, e sei lá que mais, desvalorizando-o... Não, não a velha da Gertrudes, que meu gesto tem que ficar em grande para a posteridade. Ah!, tem a Mariazinha, a moça do video-clube que mais parece vivendo no mundo da Lua. Sempre sonhadora, com uns olhos belos, mas diria até que triste, vive suspirando à espera do seu príncipe encantado como daqueles que se vê nos filmes a fazer aquelas chorosas declarações de amor que a levam invariavelmente às lágrimas. Mas romântica como ela é, a Mariazinha, se souber que me matei por falta de coragem de declarar o suposto secreto amor que nutria por ela, é bem capaz de ela também cortar os pulsos logo a seguir, para poder encontrar-se comigo no além. E lá em cima eu quero é paz, sossego, tranquilidade e umazinha de vez enquanto, nem pensar em ficar por lá a arrastar mala para cima e para baixo. Reprovada a Mariazinha.
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Caramba, como está difícil morrer por amor hoje em dia! Deixa pra lá, daqui a pouco encho-me de coragem e conto o verdadeiro motivo que vai levar-me a apertar o gatilho contra a têmpora do lado direito. É, claro que tem um motivo, estavam a pensar o quê? Mas essa parte fica para mais tarde que, como já disse, agora não quero falar do meu anunciado suicídio. Cada coisa a seu tempo. Não é que eu esteja com medo ou a vacilar, vê-se logo. A decisão está tomada e acabou. Não tem mais essa de revisão, reanálise, realinhamento de estratégia, mudança de paradigma e o caraças. Vou enfiar uma bala no crânio e pronto! Só que vai ser dentro de algumas horas, conforme acordado com este mesmo crânio que vou lixar. É que a minha mente anda nesses dias tão irrequieta e vagabunda que lhe resolvi conceder-lhe este último desejo, de sair à farra com as minhas memórias a tiracolo. E assim também terei um tempinho ainda para arrumar os meus poemas na mesinha de cabeceira, preparar as últimas 24hs nos mínimos detalhes, escrever estas merdices todas só por gozação...
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A pior coisa que pode acontecer é não planear as coisas direito. Fazer o espalhafato todo de que vai se matar e na hora H, nem fumo nem mandóde. É isso que acaba por tirar a dignidade do gesto sublime de se matar, banalizando-o e jogando-o para o campo da covardia, do fingimento, da chantagenzinha barata. Agora suicida-se por dá cá aquela palha, caramba! Qualquer problemazinha de meia tigela, toca a pendurar o pescoço na árvore do quintal ou a atirar o canastro para o vazio do precipício, como se este fosse o último culpado das nossas fraquezas. Não está a conseguir pagar a prestação da casa? Fortim! Acusaram-lhe injustamente de surripiar uns paus da empresa que surripia milhares de paus do cidadão? Fortim! Não conseguiu o visto para a Holanda? Fortim! Porra!, a demanda está tão forte que daqui a pouco vai-se estar a vender frasquinhos de suicídio nas bandejas de drops, gorila e sucrinha, pelas ruas da cidade. Já imaginaram? Grande negócio seria este, o do suicídio. Até já estou a imaginar a cena: óli suicíííííídio! Suicídio frêêêsc! Suicídio bonito e “balato”! Ou o empresário mais sofisticado, com aquele anúncio todo profissional estampado nos principais jornais da praça: “MATE-SE, Lda., empresa especializada na promoção do suicídio, ajuda-o a resolver todos os seus problemas, através de uma variada gama de produtos e serviços, incluindo laços de enforcar pré-prontos, comprimidos ultra-concentrados e sobre-doseados, aconselhamento profissional sobre as melhores formas de se matar, serviço de transporte em viaturas com ar condicionado até à borda de qualquer precipício. Pagamento adiantado (claro!)”.
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Estão a dar cabo do charme de se matar, caramba! Matar-se é seguramente um gesto íntimo, meus senhores. Devia até ser regulamentado, protegido por uma estrutura jurídico-legal para salvaguardar os direitos do candidato a suicida, entre os quais o direito à intimidade e às suas memórias, na derradeira hora que antecede o gesto. Pena que daqui a pouco vou meter aquela bala que está ali, no meu crânio, senão lançaria uma Campanha de Protecção aos Direitos do Suicida. Já imaginaram? Eu, Frank de Nhá Mari Constança, enfiado no meu fato cinzento escuro com aquela gravata que ganhei da Lena no meu 40º aniversário, à testa de uma manifestação bem concorrida a caminho do Palácio da Assembléia (ou, quem sabe até, a sede da ONU em Nova York...), com cartazes, gritos de ordem e tudo, o Dr. Floriano Varela, conhecido defensor dos direitos humanos, na linha da frente a entoar uma canção especialmente adaptada para a marcha, “tud criston, tud cimbron, tem direito, a sê quota de bala...”, e atrás, milhares de potenciais suicidas a berrar “nô crê nôs direito!, nô crê nôs direito!”. Havia de ser uma graça ver também a cara dos políticos enternecidos e solidários com a nossa luta, acotovelando-se para assumirem lugares no palco à frente do microfone. Seriam expulsos, com certeza. O suicídio é um assunto muito sério para ser entregue nas mãos dos políticos, como diria o outro.
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Humm!, cheirinho bom que sobe lá da cozinha. Cachupa guizada que mamãe está a preparar para o café da manhã, de certeza. Que horas são, hein? Caramba!, 07h12mn, e eu que nem preguei olho ainda, a noite inteira a escrever estas porcarias! Mas que importa lá o sono, se daqui a algumas horas vou poder “dormir” até o dia do Juízo Final? Aliás essa seria até um tanto ou quanto surrealista: o fulano ali a bocejar depois da novela das nove, levanta-se, dá um beijo na mãe, diz que tem que ir já pra cama porque amanhã vai se matar e precisa estar suficientemente descansado, caminha até o banheiro arrastando os chinelos, escova os dentes, faz o pupú à hora de costume, regressa ao quarto já com o corpo meio mole de sono, afasta o cobertor para um lado, ajeita-se no colchão 100% cotton, apaga a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira, dorme em dois minutos, acorda dia seguinte logo cedo, senta-se na bordeira da cama, dá aquela espreguiçada matutina, pega no revólver na segunda gaveta, encosta-o ao crânio e ... pum! Não, porra!, casta de suicídio seria esse? Ah!, como adoro este cheiro de cachupa guizada! Até consigo ouvri o fritchir da velha frigideira que mamãe comprou diazá lá na loja do Djandjan.
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Acho que vou mais é descer lá embaixo e dar uma espreitadela na mesa da cozinha...
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** FIM **

domingo, 27 de maio de 2007

AS ÚLTIMAS 24hs NA VIDA DE UM SUICIDA (Conto)

Calma, pessoal, não se assustem (como uma pessoa a quem mostrei o conto, e, ao ler o primeiro parágrafo virou-se para mim com uns olhos mais grilidos que aqueles de Pedro de Nhô Germano quando viu gongon, e perguntou-me preocupado "óh Paulino está tudo bem contigo, não tens nenhum problema, pois não?, não leve muito a sério as coisas deste mundo, moço!" Só então percebi a confusão em que me tinha metido! Está bem, o título é meio macabro, mas leiam até o fim. Não é tão "dark" assim, vão ver...
Prometo colocar o conto inteiro, em partes, para não vos maçar, ok?.
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1ª Parte
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A idéia de enfiar uma bala na minha própria cabeça veio-me aos miolos ontem à noite, precisamente às 21h35mn. Até olhei para o relógio, paranóico que sou com a questão do tempo, chiça!
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É isso mesmo, disse para comigo, porque não pensei nisso antes? Um tiro na têmpora do lado direito e pronto. Rápido, simples e indolor. E há até um quê de heróico no gesto sublime de apertar o gatilho, regozijo-me. Sim senhor, porque as outras formas de se dar cabo da própria pele escondem um desejo covarde de salvação no derradeiro minuto: a corda que pode arrebentar-se na hora H sob o peso do corpo suspenso, o precipício não assim suficientemente profundo, o filho-da-puta do médico que passava em frente ao portão no momento exacto da overdose de comprimidos... Um tiro nos miolos é mais certeiro e seguro, não há chances de errar, nem com livro de São Cipriano. E livro-me assim do meu passado.
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Meu passado. Que me persegue junto com a sombra, e até nas entrelinhas desta minha carta de despedida... Meu passado... Óh Deus meu! Deus?! Chiça!, e eu que sempre vangloriei-me do meu ateísmo convicto, agora chamando esta figura para a dança. Será medo, caramba? Já alguém disse, não sei quem exactamente, que na hora di bai todo o mundo torna-se crente dos sete costados. É, companheiro, medo do desconhecido, não é? O homem – até o mais empedernido dos machos – tem um medo terrível do desconhecido. E o medo da morte é um deles. Quer dizer, do pós-morte, que a morte já todo mundo pelo menos acima dos cinco anos já sabe o que é: podem chamá­-lo de esticar o pernil, bater a caçuleta, ir prestar contas ao Criador, subir ao céu, embarcar num hiace de quatro alças, viagem sem regresso... O pós-morte é que é um problema, nunca ninguém conseguiu dar-me uma explicação convincente. Nem o meu velho chapa, o Juca, com quem tinha um acordo, de quem partir primeiro arrumar um jeito de vir esclarecer ao outro como é que é o lado “de lá”.
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Amigo sacana aquele Juca. Bateu as botas faz um tempão – cirrose hepática - mas até esta data nunca veio saciar esta minha curiosidade! Pôxa, só queria que ele me aparecesse uma vez apenas, não importa se em forma de voz oculta, se de sombra cavernosa ou se face angelical com auréola de anjo. Não diziam que a alma penada de Pedro de Nhô Germano aparecera ao Felisberto ali na curva da estrada de Longueira? Então? Pena que este, em vez de fazer umas perguntinhas de gente sensata para esclarecer esta dúvida existencial, tenha desatado estrada arriba numa correria alucinada com os olhos mais grilidos que lua cheia, gritando ó pove de Varzinha vocês me acudam que Pedro de Nhô Germano está a querer levar-me com ele, socooooorro! Covarde de não sei que diga, chiça! A mim é que não me aparece uma alma do além disposto a bater um papo, trocar umas idéias, tipo assim coisa de filósofo maluco. Até já estou a preparar o roteiro da conversa: e aí meu velho, como vão esses ossos? Ops!, melhor não usar esta gíria, o fulano pode até levar a mal pensando que estou a gozar, literalmente. E aí, meu velho, esta saúde como vai? Também não, caramba!, morto tem lá ou deixa de ter saúde! Fala, brother, tudo na paz? Hummm, também meio arriscado para um início de conversa com um morto. Vai que este tal de inferno não seja afinal aqui na terra mas “lá em cima”, e o ex-vivente não tenha sido exactamente um menino de coro, certamente não vai estar nada em paz... Porra, dilema cruel este, o início de conversa com um finado! Deixa prá lá, quando acontecer este meu tão esperado encontro, saio logo metralhando a alma penada com as centenas de perguntas que trago atravessado na garganta desde que o Juca se foi: onde é que você está?, como é que é lá?, o que você sente?, consegue ver aqui tudo direitinho?, lá tem mulher?, e tem essa idiotice de cada-uma-com-o-seu-cada-qual?, quêeeeee, tudo liberadoooo?, que faço eu aqui então ainda??? Lá tem música de violão e doce de papaia com queijo de Santo Antão? Baboseira esta, hein... Não é que eu seja uma torre de coragem, diga-se logo. Mas a curiosidade certamente falaria mais alto, tenho a certeza. A curiosidade e também a saudade, vale dizer. Perguntaria pelo Juca, pela minha Tia Perpétua que se foi quando eu era menino ainda, pelo doido Djubi que deambulava sua loucura pelas ruas da Vila até que sumiu de repente e nunca mais se encontrou nem o corpo...
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Bolas, vou mudar de assunto que ficar a falar da morte à hora da morte é meio deprimente. De qualquer forma já já vou poder esclarecer todas as minhas dúvidas por mim mesmo. Como carta de despedida, era suposto eu estar aqui a esparramar amor aos quatro ventos, tipo “mamãe perdoa-me este gesto mas não tive outra saída, já não aguentava o peso da angústia dentro de mim, eu te amo muito, mamãe. E, claro está, ao meu pai também, o melhor homem que eu conheci...”. Nããão, estou sem saco para essa lenga-lenga. Se nunca os disse “eu vos amo meu pai e minha mãe”, para quê dizê-lo agora? Aliás, crioulo não gosta mesmo de dizer essas coisas para as pessoas que realmente ama. Melhor: amámos à nossa maneira, sem estas pieguices novelescas que nos enfiam goela abaixo de manhã à noite, sem este choramingar de paixão para cima e para baixo, as sobrancelhas levemente arqueadas sobre os olhos desmaiando-se numa ternura de nos fazer ir às lágrimas, a voz ligeiramente chorosa para dar a tal divina musicalidade que idealizamos no amor ao próximo. Este é o amor-teatrinho-água-com-açúcar.
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Pior é que a coisa acaba por cercar-nos de todos os lados, acaba influenciando tanto as pessoas ao nosso redor – especialmente as mulheres! – que é um Deus nos acuda se não as dizemos pelo menos dez vezes ao dia “coraçãããão, eu te amo...”; “docinhoooooo, I love you béstente, sabias?”. Claro que sabia, idiota, é a nona vez que repetes isso apenas hoje! Ou então pensas que ela é surda... “Vem cá minha princesa, vem para o teu fifiu, vem, amorzinho, estou tão apaixonado por você...”. Dá ganas de vomitar, caramba! Isso sem falar nas musiquinhas de merda que nos entopem os buracos dos ouvidos até à exaustão. “Tô fazendo amor / com outra pessoa / mas meu coração...”. Certo. Certíssimo. O fulano está a comer aquela morenaça de tirar o fôlego, um metro e setenta de gente bem distribuída, louvar-a-Deus, e fica a pensar onde está o seu coração! Ah qual é, vai enganar outro, companheiro. Que nesta hora, a última coisa em que se pensa é o coração. Aliás, muitas das vezes, nem se pensa coisa alguma. Não dizem que quando a cabeça embaixo sobe, a de cima desce? Fode-se e pronto. Ops!, eu aqui com a minha língua desgarrada... Melhor dizer “fazer amor”. É mais chique e não corro o risco de deixar encabulados os meus herdeiros que terão que ouvir este lero todo no Cartório Notarial da freguesia, na divisão post-mortum dos meus parcos bens (nossa, até está saindo latim, hein!). E porque então não uso a função delete para apagar daqui este palavrão, ahn? Talvez que lá no fundo queira mesmo que fiquem encabulados, os parasitas, nem que seja um tintinho assim. “Fazer a-mor”. Não é lindo esta frase, pessoal? Vá lá, fechem os olhos e sintam-lhe o gosto: “f-a-z-e-r a-m-o-r”. Hummm, sabe a borbulhas de fino champanhe francês que nos acaricia a língua. “Fazer amor”... “Amoooor, vamos fazer amor, amorzinho...?” (chiiiiiiiça!). “Ai, hoje não dá, amooor, minha máquina está com tinta vermelha... que pena”. Filha-da-mãe!, pensa o fulano secretamente para não dar bandeira... Agora lembro-me que o Zé também detestava esta música. Quando começava a tocar na rádio, saía logo aos berros, que se o rapaz estava a reclamar, que fosse fazer amor com a puta-que-o-pariu!!! Doido, este Zé, fazia-nos rir às gargalhadas o seu ódio visceral a esta música...
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(Continua no próximo post)